Dólar abre em alta à espera de novos dados de emprego nos EUA
- Por Júlia Galvão | Folhapress
- 06 Nov 2026
- 16:11h

Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias
O dólar abriu em leve alta nesta sexta-feira (6). Às 9h52, a moeda era cotada a R$ 5,502, alta de 0,27%, com investidores à espera de novos dados do mercado de trabalho dos Estados Unidos. Os números podem influenciar as expectativas sobre os próximos passos do Fed (Federal Reserve, o banco central americano) em relação aos juros na próxima reunião.
No cenário doméstico, os investidores seguem atentos a possíveis sinalizações sobre os rumos da política econômica do novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), especialmente em relação à condução fiscal.
Na véspera (5), a moeda americana fechou a R$ 5,487, em alta de 0,68%, enquanto a Bolsa brasileira, por outro lado, recuou 0,81%, aos 166.191 pontos. O pregão foi marcado pela volatilidade e pela cautela dos investidores. O movimento pressionou ativos de mercados emergentes, como a Bolsa brasileira e o real.
A cautela foi motivada pelo temor de que o resultado das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos e a maioria democrata no Congresso representem um freio aos investimentos em inteligência artificial. Nasdaq, S&P 500 e Dow Jones registraram fortes quedas, em movimento que contaminou os mercados globais.
Nas última terça-feira (3), o Partido Democrata conquistou a maioria nas duas Casas do Congresso americano nas eleições de meio de mandato dos EUA. Com a apuração ainda em andamento, a oposição ao presidente Donald Trump havia obtido 251 das 435 cadeiras da Câmara, contra 155 dos republicanos. No Senado, os democratas já tinham garantido ao menos 54 dos 100 assentos.
A mudança na composição do Congresso repercutiu nos mercados diante do temor de que a maioria democrata altere o ritmo de expansão da infraestrutura de inteligência artificial. Integrantes do partido defendem medidas para conter os impactos da expansão dos data centers, o que pode elevar os custos das empresas e afetar novos projetos.
"Agora existe a possibilidade de que os anos de impulso do governo Trump para a expansão da IA sejam, de alguma forma, reduzidos, pois muitos aspectos do setor de IA foram ignorados pelo atual governo", afirma Ipek Ozkardeskaya, analista sênior do Swissquote Bank.
O S&P 500 recuou 4,16%, aos 7.368 pontos, enquanto o Dow Jones perdia 3,44%, aos 51.521 pontos. O Nasdaq registrou a maior baixa entre os indicadores, de 5,52%, aos 24.315 pontos
O movimento da tarde destoou do visto durante a manhã, quando investidores corrigiram parte das perdas recentes em meio à expectativa de um encontro entre Lula (PT) e economistas para discutir medidas de controle da trajetória da dívida pública brasileira.
Segundo noticiou a Folha de S.Paulo, o presidente Lula iniciou nesta quinta-feira (5) uma série de conversas com economistas e empresários de diferentes vertentes para discutir os rumos da política fiscal do governo, segundo apurou o jornal.
O primeiro encontro foi com nomes mais próximos do presidente. Lula recebeu o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, o vice-presidente Geraldo Alckmin, o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, o presidente do BNDES, Aloísio Mercadante, a ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck, o ex-presidente do BNDES Luciano Coutinho e o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega.
Após o encontro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, voltou a prometer resultados melhores nas contas públicas para os próximos anos, mas não falou sobre medidas concretas.
No começo da semana, a possibilidade de uma proposta do economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, ser apresentada ao presidente preocupou analistas. O Executivo negou que houvesse uma reunião prevista entre Lula e o economista.
Lara Resende defende há anos que o problema fiscal do Brasil está nos juros, e não nos gastos primários do governo, que excluem o pagamento de juros da dívida. Segundo ele, a Selic elevada faz os encargos da dívida crescerem em ritmo superior à capacidade de geração de riqueza do país, o que explicaria a trajetória do endividamento público.
A proposta envolveria a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, responsável por definir metas conjuntas para um horizonte de quatro a cinco anos. O Banco Central se comprometeria a manter a Selic entre a meta de inflação, de 3%, e o crescimento nominal potencial do PIB, estimado em cerca de 5,5%. Como etapa inicial, a taxa seria reduzida gradualmente ao longo de 12 meses, até 7,5%, com uma margem de segurança de dois pontos percentuais em relação ao PIB potencial.
Investidores também repercutiram a decisão do Copom na véspera (4), quando o colegiado manteve a Selic em 13,75% ao ano e interrompeu o ciclo de cortes. Foi a primeira reunião após a reeleição de Lula. A decisão unânime veio em linha com a expectativa da maioria dos economistas e foi justificada pelo aumento das incertezas, pela elevação das expectativas de inflação e pela desaceleração mais acentuada da atividade econômica.
O comitê retirou do comunicado a referência ao ciclo de flexibilização dos juros, sinalizando maior disposição para manter a taxa inalterada por algum tempo. Não indicou, porém, por quanto tempo pretende fazer isso nem deu pistas sobre os próximos passos.
A decisão ocorreu em meio à cautela dos investidores após a vitória de Lula. Na última semana, a Bolsa recuou 18%, na maior desvalorização desde 2020, enquanto o dólar subiu 9,18%, maior alta em 18 anos. Os juros futuros acumularam avanço superior a 2%.
A reação reflete o receio de que o governo não adote medidas suficientes para equilibrar as contas públicas. A perspectiva de continuidade de uma política fiscal expansionista eleva o prêmio de risco exigido pelos investidores, pressiona os juros de longo prazo e pode encarecer o crédito para empresas e consumidores.
A alta do dólar também aumenta os custos de produção de empresas que dependem de insumos importados e pode dificultar a convergência da inflação à meta.
No primeiro Boletim Focus após a eleição, economistas elevaram as projeções para a inflação e a Selic. A estimativa para o IPCA de 2026 passou de 5,19% para 5,22%, enquanto a previsão para a taxa básica no fim do ano subiu de 13,25% para 13,5%. Para 2027, a projeção da Selic avançou de 11,75% para 12,5%.
"A desancoragem das expectativas de inflação puxa essas expectativas para cima. Inclusive, no horizonte relevante de atuação, que é o segundo trimestre de 2028. Isso significa que, para convergir para 3%, o Banco Central precisa se mostrar contracionista. Consequentemente, tem menos motivos para continuar cortando os juros se, no horizonte relevante de atuação, temos observado uma elevação das expectativas", diz Matheus Spiess, estrategista da Empiricus Research.
Para Leonel Oliveira Mattos, o cenário é de complexidade. "O Copom não mencionou que o descolamento das expectativas de inflação ganhou força principalmente após a reeleição de Lula. Ainda assim, o Comitê procura preservar sua credibilidade e sinalizar ao mercado financeiro e aos investidores que adotará uma postura mais conservadora sempre que houver uma deterioração significativa das expectativas inflacionárias".




















