Área técnica do TSE diz a Kassio não ter achado conteúdo citado por Flávio em canal de Janones
- Por Catia Seabra, Luany Galdeano e Luísa Martins | Folhapress
- 13 Out 2026
- 14:21h

Foto: Rosinei Coutinho/STF
A área técnica do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) afirmou não ter identificado no canal "Exército do Lula", administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), conteúdo que a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL) citou para denunciar o grupo de WhatsApp à corte.
A análise da área é uma resposta a pedido feito nesta segunda (12) pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, para que a Assessoria de Enfrentamento à Desinformação do órgão investigasse o conteúdo.
"Quanto à circulação de conteúdos idênticos ou substancialmente equivalentes, não foram localizadas, entre as publicações do canal no período de 2 a 11 de outubro de 2026, reproduções das afirmações examinadas nos autos", afirmou o relatório.
O documento pondera, por outro lado, que mensagens veiculadas entre 25 e 29 de setembro foram apagadas ou editadas a partir do dia 7 de outubro, o que leva a uma "lacuna" para a análise dos riscos -que só pode ser suprida pelos registros originais sob a guarda do provedor.
Além disso, o relatório diz que o canal exprime um "potencial de acirramento de antagonismos políticos em um momento de alta polarização, embora seus efeitos não possam ser precisamente dimensionados".
O assessor especial de enfrentamento à desinformação do TSE, Frederico Alvim, afirma que o canal tem "elevada audiência potencial, volumes expressivos de encaminhamento em publicações isoladas, emissão de orientações sincronizadas de mobilização e dificuldade de reconstituir integralmente o histórico por consulta pública".
A campanha de Flávio afirmou, em nota, que o apagamento de mensagens faz parte da estratégia de Janones para burlar os mecanismos de controle do WhatsApp e do próprio TSE. Anunciou, ainda, que vai encaminhar à corte eleitoral um novo relatório técnico sobre o canal, "com a conservação de grande parte do conteúdo que Janones apagou".
"Proibir a disseminação de fake news e combater canais que deliberadamente se comportam de forma a burlar os mecanismos de controle não é nem nunca foi censura. É obrigação legal", diz a nota.
Atendendo a um pedido da campanha de Flávio, que acusa Janones de utilizar o canal para disseminar informações falsas e coordenar ataques contra sua candidatura, Kassio mandou censurar o canal no domingo (11), o que gerou uma série de críticas internas à sua atuação.
Depois disso, o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, corregedor-geral eleitoral, derrubou a censura de Kassio e determinou que o canal voltasse a funcionar. Além disso, pediu que o tema seja incluído na primeira sessão virtual regimentalmente disponível, com apreciação urgente, preferencialmente em até 24 horas.
Na noite desta segunda-feira, o canal de Janones já reunia quase 4 milhões de seguidores e é uma das apostas da campanha de Lula para mobilizar a tropa digital, área em que a direita costuma ter protagonismo.
Como mostrou a Folha de S. Paulo, Kassio deu a decisão contra o canal de Janones sem ter indícios ou documentos de que as fake news apontadas na ação da campanha de Flávio circulavam no grupo. A ação relatava notícias falsas sobre Nossa Senhora, ligação de Flávio com milícias e lavagem de dinheiro na Kopenhagen, além de cortes no INSS. O jurídico de Flávio, entretanto, não anexou nenhum documento relativo a isso.
Nesse contexto, Cueva pediu esclarecimentos e documentos que comprovassem a circulação do conteúdo no canal. No entanto, 40 minutos depois desse pedido, a campanha de Flávio encaminhou pedido a Kassio e juntou alguns documentos, obtendo uma decisão favorável do presidente do TSE.
Procurada, a advogada da campanha de Flávio, Maria Claudia Bucchianneri, afirmou ter informado ao tribunal que não havia notas atuariais das postagens no grupo devido ao grande volume de material e que o próprio TSE deveria ter feito isso.
Nota da campanha afirma ainda que a ação tinha sido movida em segredo de Justiça, com pedido para que assim se conservasse até que a Meta conservasse os dados. E acrescenta que o corregedor não determinou a conservação de dados e retirou o segredo do processo.
A guerra jurídica entrou no discurso dos candidatos. Nesta segunda, Lula cobrou Kassio e disse que presidente do TSE "não pode ter lado".
"Para ele achar que ele tem que cortar, ele tem que mostrar qual é a ilegalidade que tem. O que não pode é o presidente da Suprema Corte Eleitoral ter lado na política. O lado dele tem que ser o lado da igualdade de comportamento, da igualdade de procedimento", afirmou.
"Eu acho que eles estão extrapolando em algumas decisões contra a minha campanha, isso é visível, isso já foi denunciado", disse ainda.
Durante ato da esquerda na Paulista, Lula criticou a decisão de Kassio, que considerou "absurda", e disse estar "desconfiado do comportamento da corte eleitoral".
Ministros de uma ala do TSE diziam extraoficialmente no domingo haver indícios de engajamento de Kassio na campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República. Especialistas em direito eleitoral consultados pela reportagem também questionaram a postura do magistrado.
O ministro Kassio já havia convocado uma reunião a ser realizada nesta terça-feira (13) para reunir as campanhas de Flávio e Lula. O encontro deve contar com a presença de Bucchianeri, do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador-geral da campanha, e o advogado Angelo Ferraro, da campanha do presidente Lula.




















