Se eleito, Flávio planeja implementar no Itamaraty reforma importada do governo Trump

  • Por Patrícia Campos Mello | Folhapress
  • 30 Set 2026
  • 10:07h

Foto: Reprodução

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) planeja implementar o modelo do secretário de Estado americano, Marco Rubio, no Itamaraty, caso vença a eleição. Essa é a ideia que Marcos Degaut, braço-direito do ex-deputado Eduardo Bolsonaro em política externa, vem passando em reuniões fechadas com diplomatas e formuladores em que descreve propostas da campanha.

 

Nas conversas, Degaut disse, referindo-se a "nosso projeto", que a meta é implementar o "Marco Rubio overhaul" (reforma do Marco Rubio), uma ampla reestruturação das carreiras no Itamaraty. Os diplomatas passariam a estar focados em regiões geográficas e temas específicos e teriam de cumprir metas de exportação, investimentos e inserção comercial, entre outras. Haveria também uma reforma total do sistema de promoções, fonte de insatisfação disseminada no Itamaraty hoje.
 

A interlocutores Degaut afirmou que o plano é fazer uma política externa com concentração em 35 países considerados prioritários para o interesse nacional, chamados de G35, que incluiriam as nações que participam do G20. Em vez de dispersar recursos em inúmeras embaixadas, haveria alguns superpostos, com mais dotação orçamentária e de pessoal. Na África, por exemplo, África do Sul e Egito poderiam ser superpostos.
 

A reportagem falou com cinco pessoas que participaram de conversas com Degaut, que assinou um longo artigo sobre o tema com Eduardo Bolsonaro publicado no portal Gazeta do Povo este mês.

Nas conversas, Degaut tem dito que se opõe a um alinhamento automático aos EUA e defende a manutenção dos laços econômicos com a China. Mas ele enfatiza a necessidade de intensificar relações com Washington, com acordos comerciais e em minerais críticos, e reduzir a dependência de Pequim para exportações de commodities.
 

Ele citou os Emirados Árabes Unidos como um modelo a ser seguido e pregou "realismo propositivo" norteando a política externa. Degaut também ressaltou a prioridade de relações do Brasil com um Ocidente político, com foco em países do G20 e também Israel e os países da América Latina governados pela direita.
 

No Departamento de Estado, o "overhaul" de Rubio levou à eliminação de 1.300 vagas, fechamento de departamentos e postos, estabelecimento de metas quantitativas e qualitativas (com critérios como fidelidade à agenda de Donald Trump).
 

Rubio decretou que mérito seria o principal critério para promoções, não tempo de carreira. Sob seu comando, o Departamento de Estado atingiu número recorde de indicados políticos em substituição a funcionários de carreira -apenas 9% dos embaixadores vêm do serviço diplomático. Durante os 50 anos anteriores, esse percentual variou de 57% a 74%.
 

Degaut afirmou a interlocutores ouvidos pela reportagem que haveria necessidade de atribuir funções a algumas pessoas de fora do Itamaraty. Mas disse que não haverá uma caça às bruxas com perseguição por motivos políticos.
 

Nas promoções, Degaut indicou que a senioridade não seria critério absoluto para ocupação de postos. Haveria avaliação de como cada diplomata cumpriu sua função, e isso seria levado em conta para promoção.
 

Degaut foi secretário Especial de Assuntos Estratégicos no governo de Michel Temer e secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa no governo Jair Bolsonaro. Ele foi indicado para a Embaixada do Brasil nos Emirados Árabes, mas não chegou a assumir.
 

Recentemente, atuou como presidente para a América Latina do Edge Group, indústria de armamentos dos Emirados Árabes. Procurado diversas vezes pela reportagem, não respondeu às tentativas de contato. A campanha de Flávio Bolsonaro disse que nem Degaut, nem Eduardo Bolsonaro falam pelo candidato, e que a campanha não irá se posicionar em relação a planos para política externa.
 

Em caso de vitória de Flávio, há uma avaliação de que Eduardo sairia muito fortalecido, após o lobby por medidas de Trump contra o governo Lula, e seria difícil negar o comando do Itamaraty se ele quiser. Mas uma alternativa em discussão seria Eduardo assumir a Embaixada do Brasil em Washington.
 

Na corrida para chefiar o Itamaraty caso Flávio ganhe estão ainda Roberto Azevedo, ex-diretor-geral da OMC e a senadora Tereza Cristina (Progressistas-MS). Corre por fora Marcos Troyjo, ex-presidente do Banco do Brics. Degaut poderia ter algum papel no Ministério da Defesa ou no Itamaraty.
 

Existe grande insatisfação no Itamaraty em relação à lentidão das promoções e à falta de perspectivas para ascensão na carreira. Entre 2006 e 2010, houve expansão no número de diplomatas admitidos, que totalizaram quase 535 nesse período. Mas existem limitações de quantos podem ser promovidos por período, além de número limitado de postos.
 

Como resultado, há diplomatas há mais de dez anos sem receber nenhuma promoção. Também há críticas ao que seria a predominância de critérios políticos pesando nas promoções, com prioridade para diplomatas próximos dos cargos de chefia ou apadrinhados.
 

"O principal problema hoje é o imobilismo dentro da carreira", diz Gustavo Buttes, presidente da Associação e Sindicato dos Diplomatas Brasileiros. "A maioria dos diplomatas e das diplomatas passa muitos anos sem perspectiva clara de progressão, em razão de gargalos artificiais que se acumularam ao longo do tempo, gerando descontentamento e afetando a motivação de diferentes gerações."
 

No ministério, interlocutores argumentam que não há consenso sobre a reforma desejada e que seria preciso mudar a Lei do Serviço Exterior para mudanças maiores, mas não houve apoio político no Congresso para isso.
 

Procurado, o Itamaraty afirmou que houve 615 promoções nos quatro anos de governo Bolsonaro, e 622 nos quatro anos do atual mandato de Lula. O ministério informou que adotou uma série de medidas para aumentar a diversidade em seus quadros e mudanças no chamado quadro de acesso para promoções.
 

PROPOSTAS DE POLÍTICA EXTERNA DE LULA E FLÁVIO BOLSONARO
 

*Resumo dos programas de governo entregues pelas campanhas à Justiça Eleitoral_
 

LULA (PT) - FLÁVIO BOLSONARO (PL)
 

Tratar como prioridade a implementação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e o combate à crise climática, inclusive o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), ambas iniciativas criadas pelo governo Lula - Abertura comercial: quer evitar a dependência de áreas críticas, como cadeias de suprimentos e de tecnologia
 

Fortalecer setor de inteligência para proteção de soberania e ameaças geopolíticas, cibernéticas e do crime organizado transnacional - Retomar cronograma de adesão à OCDE
 

Fortalecer vigilância territorial, proteção de recursos naturais e combate ao crime organizado transnacional - Encerrar gradual o IOF sobre o câmbio
 

Fortalecer Mercosul e aprofundar redes multimodais, em especial conexões com o Pacífico e o Caribe - Buscar soluções diplomáticas eficazes contra sanções dos Estados Unidos, da China e da União Europeia aos produtos nacionais
 

Fortalecer a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) - Implementar plano nacional de integração às cadeias globais de valor, tendo como prioridade agroindústria avançada, minerais críticos, saúde e economia digital
 

Aprofundar relações com a África e a cooperação na área do Atlântico Sul e com os países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), assim como a União Africana e a Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático) - Colocar Brasil entre os principais destinos mundiais de investimento em transição energética até 2030
 

Defender reforma da ONU e maior representatividade do Conselho de Segurança, assim como da OMC e de instituições financeiras globais, como FMI, Banco Mundial e o chamado Banco do Brics; aprofundar aproximação ao Brics, ao chamado Sul Global e ao G20 - Combate ao crime organizado é tratado como questão de segurança e defesa nacional
 

Quer liderar governança internacional para tecnologias digitais e inteligência artificial - Incentivar tecnologias como drones e inteligência artificial.
 

_Fonte: Tribunal Superior Eleitoral_


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