Chefe do Inep não sabe dizer tamanho do banco de questões do Enem, mas nega escassez

  • Por Gustavo Gonçalves | Folhapress
  • 27 Nov 2025
  • 14:57h

Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

I presidente do Inep, Manuel Palacios, afirmou que não sabe o número exato de questões armazenadas no BNI (Banco Nacional de Itens), que reúne as perguntas utilizadas nas provas do Enem, mas negou que haja uma escassez que prejudique a elaboração de novas provas. "Se tivermos menos de 100 mil itens, vou ficar muito surpreso", disse ele em entrevista à reportagem.
 

Palacios explicou que o órgão, ligado ao Ministério da Educação e responsável pelo exame federal, produz desde 2009 as questões, também chamadas de itens, e que continua utilizando perguntas elaboradas em momentos diferentes, inclusive algumas pré-testadas há mais de uma década. "A última prova tem item que foi pré-testado em 2013", afirmou.
 

O pré-teste é uma das etapas de produção do exame federal, que adota uma metodologia chamada de TRI (Teoria de Resposta ao Item).
 

Nesse sistema, a nota final do candidato não depende apenas do número de respostas corretas, mas da coerência do padrão de acertos -por exemplo, quando um participante acerta uma questão difícil e erra itens considerados fáceis. A escala de dificuldade é definida nos pré-testes.
 

As declarações de Palacio ocorrem após a divulgação de que o estudante de medicina Edclay Teixeira mostrou em uma live no Youtube, antes do segundo dia do Enem, ao menos cinco questões muito semelhantes às que apareceram nos cadernos de ciências da natureza e matemática.
 

Em outro vídeo, publicado em janeiro, ele explicou seu método de "previsão" das questões, dizendo ter participado do Prêmio Capes Talento Universitário, iniciativa federal destinada a estudantes em início de graduação.
 

Palacios afirmou que as semelhanças observadas resultam da memorização de itens usados em pré-testes, não de vazamento. Segundo ele, o Inep realiza de dois a três pré-testes por ano, cada um com cerca de 800 questões avaliadas, totalizando mais de 4.000 itens testados nos últimos anos.
 

"O pré-teste é de questões de prova, não da prova do Enem", disse. "Sem pré-testes, não é possível produzir resultados comparáveis entre diferentes edições do exame", disse o presidente.
 

À reportagem professores afirmaram que situações parecidas já ocorreram em anos anteriores. Segundo eles, o estudante de medicina costuma participar de pré-testes e memorizar as questões -e, em outras ocasiões, teria pedido a conhecidos fizessem isso para ele, às vezes em troca de dinheiro.
 

Essas aplicações, segundo Palacios, seguem protocolos de segurança rigorosos, como uso de detectores de metal, proibição de celulares e restrição de anotações. Ele afirmou que os participantes são informados sobre as regras pelo aplicador, não podem sair com rascunhos nem levar equipamentos e o procedimento é semelhante ao do próprio Enem.
 

Um participante do Prêmio Capes ouvido pela reportagem relatou que não se lembra de assinar termo específico sobre sigilo, apenas de aceitar condições gerais de participação. Disse também que circulava entre os estudantes a "fofoca" de que as questões aplicadas poderiam integrar o BNI.
 

Questionado sobre a possibilidade de adotar sigilo formal nos pré-testes, após a divulgação de questões semelhantes às do Enem, Palacios respondeu que as aplicações já são cercadas de medidas de segurança e de uma "presunção de sigilo".
 

O presidente informou ainda que, após a divulgação dos vídeos, o Inep realizou uma avaliação em grande escala para verificar o alcance dos materiais publicados. "Verificamos que não havia nenhum indício de que alguém tivesse tido acesso à prova antes da aplicação. O que existiam eram questões semelhantes, com maior ou menor proximidade, mas nenhuma idêntica", afirmou. "Ninguém viu a prova."
 

Palacios declarou ainda que as notas do Enem 2023 e 2024 seguem integralmente válidas para os processos seletivos, incluindo o Sisu (Sistema de Seleção Unificada), que a partir de 2026 permitirá o uso da nota obtida em três últimas edições do exame.
 

Ele reafirmou ainda o plano de transformar o Enem em um instrumento de avaliação da educação básica, além de mantê-lo como principal porta de entrada para o ensino superior. Segundo ele, o exame deverá se tornar a referência nacional para medir a qualidade do ensino médio, por mobilizar os estudantes e refletir de forma mais fidedigna a aprendizagem nessa etapa.


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