Miami com dendê: baiano arrasa com food truck de acarajé nos EUA

  • Rafael Lemos
  • 07 Dez 2014
  • 14:15h

Carlinhos chegou aos Estados Unidos numa missão religiosa. Foi lá que se descobriu cozinheiro e, desde então, trabalha em um food truck. (Fotos: Carlos Martinez/Divulgação)

Você já pensou em comer acarajé nos Estados Unidos? Pois lá existe um food truck com o bolinho de feijão, abará, vatapá, caruru e mais um monte de baianidades. O dono disso tudo é o cozinheiro Antônio Carlos Encarnação, 45 anos, o Carlinhos do Acarajé, que representa a culinária brasileira na terra do Tio Sam. Carlinhos nasceu no bairro do Garcia, em Salvador. Aos 5 anos de idade foi iniciado no candomblé, no terreiro de Gum Wtacum Uzerê, em Encarnação de Salinas, pelo bisavô paterno que era pai de santo. Começou a trabalhar com 14 anos, foi vendedor em uma bomboniere, secretário na Arquidiocese de Salvador e até office-boy. Depois, aos 23 anos, se mudou para o Rio de Janeiro. Fez adereços para escolas de samba, roupas para quadrilhas juninas e também foi voluntário de um bloco de samba carioca. Carlinhos é formado em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). Ele chegou a participar de peças, mas foi na cozinha que fez sua maior arte. Influenciado pela família, aprendeu a cozinhar desde a infância com a avó materna Maria Augusta. Ele cozinhava apenas em encontros familiares e eventos do terreiro. Percebeu que podia ganhar dinheiro com a culinária já nos Estados Unidos, quando começou a promover encontros em sua casa, em Miami.

“Em 2000, aos 31 anos ,uma missão religiosa me chamou para os Estados Unidos. Meu orixá Obaluayê me orientou que fosse para Massachusetts cuidar de uma criança que, na época, tinha 7 anos”, explica. Por conta da missão,  morou por quatro anos no estado. Depois de cumprida, foi para Miami e abriu um food truck de culinária brasileira, que vende de comida baiana a coxinha.

Tudo começou a partir da “farra do acarajé”, evento que fazia todo mês em casa para clientes brasileiros. É a eles que Carlinhos deve seu sucesso em terras norte-americanas. Com saudade do Brasil,  mais de 40 pessoas se reuniam na farra e também ajudavam na divulgação do trabalho.

Como a casa não estava mais dando conta de receber tanta gente, o baiano fez parceria com um casal de amigos, Joselito e Diana Costa, e viraram sócios em um food truck. No veículo, vendem pão delícia, quibe, coxinha, brigadeiro e comida feita com dendê.

Além disso, é bom caprichar para manter a boa sorte, já que o bolinho não é oferecido só para os mortais. “Eu preparo cada acarajé como se fosse uma oferenda para orixás”, afirma. Os deuses têm abençoado: Carlinhos recebe uma média de 200 encomendas mensais.Bênção internacional - Para ser sucesso de vendas na região, o cozinheiro explica que “o segredo é entender a saudade do brasileiro de seu país de origem”. Mas outras preocupações mais práticas, como a qualidade do material, não devem ser esquecidas - já que o cuidado com o alimento é cobrado pelo governo para que ele possa manter o food truck.

Ao longo do tempo, conquistou clientes fiéis, inclusive de outros passaportes, como cubanos, argentinos, venezuelanos, mexicanos, dominicanos e norte-americanos. “Os estrangeiros não tiveram rejeição alguma à culinária baiana. Muito pelo contrário,  a aceitação é muito grande. O americano tem o costume de querer aprender, experimentar”, conta.

Tudo é feito aos poucos: como os americanos não são acostumados à pimenta baiana, Carlinhos previne cada um antes de deixar o acarajé apimentado. Já os clientes de outras nacionalidades fazem uma comparação com comidas de seus países. O acarajé, por exemplo, é comparado ao falafel, comida comum no Oriente Médio.

O trabalho que dá -  A rotina nos Estados Unidos não é fácil. Carlinhos trabalha no food truck de sexta-feira a domingo e o trabalho começa às 5h da manhã. De segunda a quinta, ele vai às feiras africanas e asiáticas em busca de ingredientes para fazer comida baiana. Apesar de estar em um país diferente, ele afirma que não tem dificuldade para encontrar nenhum produto.

Durante o dia,  prepara as receitas que serão vendidas no tabuleiro. Para o acarajé, primeiro quebra, lava e coloca de molho o feijão- fradinho. Depois prepara a pimenta. Faz a salada vinagrete e a massa e, por último, põe o azeite de dendê, junto com a cebola, para fritar. Esse processo leva de 8 a 10 horas.

Além do acarajé, Carlinhos também vende bobó e moqueca de camarão, pão- delícia, bolos de aipim e milho-verde, coxinha de frango, quibe. O cardápio completo pode ser visto na página no Facebook, que tem seu nome.

Por lá - O acarajé e o abará custam U$ 5 (R$ 12,50). Carlinhos diz que, em comparação, “não é mais caro que no Brasil, muito pelo contrário, é mais barato. Levando-se em conta os preços dos materiais, que são muito mais caros, e a qualidade, nunca reclamaram, pois sabem a dificuldade de conseguir comer o melhor acarajé do mundo”.

Por enquanto, ele afirma que irá continuar morando nos Estados Unidos. Mas, nas férias, sempre retorna à Bahia, para seu sítio em Mar Grande, na Ilha de Itaparica. Carlinhos ainda é fiel ao candomblé e frequenta terreiros nos Estados Unidos. Lá, é pai de santo e conhecido como Carlinhos de Oxalá. Ele joga búzios e faz banhos de ervas. Mas as cerimônias mais importantes só são feitas no Brasil.


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