Economia: Como não ganhar dinheiro

  • por: Anderson Santos.
  • 24 Dez 2019
  • 13:15h

Foto: Divulgação

Nos meses passados, deixei relatórios com quantidade suficiente de acontecimentos na economia e na política. Se seguiu os passos do relatório de novembro, comprando ativos do varejo e da construção civil, certamente conseguiu mais de 6% de rentabilidade em sua carteira. Este mês venho de maneira descontraída, fazendo um relato desses jogos de azar, como: Bingo, bolão de futebol, mega sena, bolão da mega da virada e etc.. Contado em uma breve crônica. Antes de partimos para a crônica, deixo alguns exemplos de probabilidades. A roleta americana. É composta por 38 números. Na escolha de um número a possibilidade do apostador ter êxito é de 1 em 38, (2.7%) de chance. Simples assim. Outro exemplo é o jogo de dado. A lei dos grandes números nos diz que se jogarmos o dado três mil vezes, tal coisa (escolha de um número) virá a acontecer. Já na mega sena, as coisas complicam mais ainda, as chances de uma pessoa acertar apostando com uma cartela, é de 1 em 50 milhões. Demonstrando esses três exemplos, é mais do que suficiente para provar que estes são as piores maneiras de ganhar dinheiro ou enriquecer. Segue um hipotético caso narrado de datas como a do final de ano. Crônica livremente inspirada em fatos verossímeis. 

                                                                                                                                                          Dezembro de 2019.

 

Mega da Virada Na mega sena da virada ninguém quer ficar de fora. Qualquer mensagem, gesto, percepção é como uma sugestão divina te mostrando o caminho da felicidade para ser o ganhador certo da vez. Vou lhe contar uma história de como foi que um velho me enganou.

Final de ano é tempo de reencontrar com familiares, com as uvas passas, de ganhar presentes (pois o comércio através de propagandas massivas faz com que nós compramos desesperadamente), de escutar a mesma piada do tiozão bêbado, da voz alta e chata da tia beata, mas também é tempo da mega da virada. Nesse período todo o movimento que as lotéricas fazem é grudar na sociedade por meio da mídia televisiva, mídia impressa e empregados que vivem de bolão, instituindo assim o senso comum da grande oportunidade que perderá se não entrar nessa manada. Bolões são feitos pelos vizinhos, colegas de trabalho, colegas da faculdade, amigos do “baba”, entre a família, cachorro, gato e papagaio. Como sou cético com jogos e com ganhos na vida, pois acredito que nada vem sem um esforço/sacrifício, nunca fiz questão de participar. Mas o homem médio aquele que não tem muito ânimo para trabalhar, nem sequer pensar em seus projetos e sonhos, já acha maçante ter que abaixar a cabeça para pegar dinheiro que se desprendeu da árvore em um certo momento do ano. Esse indivíduo quer que lhe diga de maneira fácil como ganhar dinheiro, dando espaço e trabalho para oportunistas trazerem a oportunidade de ouro, te mostrando um negócio baseado em pirâmides, bingos, prêmios da sorte, compras de determinadas ações de empresas na promessa de que em um mês sua grana será dobrada. Eu acreditava mesmo que não fazia parte desse grupo de pessoas.

Mas foi à 1000 km de distância quando fui deixar meu filho com sua mãe onde residem que algo diferente aconteceu; estava no shopping center passando por galerias de lojas, andando meio sem norte quando vi uma lotérica sem movimento algum. Apesar de ser o último dia para conseguir jogar na mega da virada, achei muito estranho, mas foi por isso que resolvi passar e arriscar, afinal, foi por minha vontade que decidi, sem influência de ninguém, nem de mídia, nem de oportunistas, já que todos estavam com seus lucros no bolso esperando somente o resultado. Entrei e perguntei a atendente se ainda dava para fazer um jogo, ela me disse que não, pois já tinha encerrado. Foi um alivio para mim essa resposta, sabia que não era mesmo para eu entrar nessa irrompida “festa”. Dei a volta e já há quase 100 metros um senhor que estava no canto da lotérica, meio que no ponto cego e que havia passado despercebido por mim, gritou em minha direção acenando, fazendo com que eu fosse ao seu encontro. Era um senhor simples: boné, camiseta branca, bermuda jeans e uma sandália surrada de couro.

O senhor falou: - Escutei meio sem querer que pretendia fazer um jogo.

 Pois é, acho que perdi o prazo, respondi a ele.

- Não, acho que a moça lhe passou informação errada. Vamos até lá, vou fazer um bolão também. Meio que sem entender muito da situação retornamos para lotérica onde a atendente falou comigo.

- Desculpe-me moço, o jogo que encerrou foi a quina devido o horário, o sorteio já é amanhã dia 29/12/2018, mas para o jogo da virada ainda dá tempo.

- Desculpe-me novamente, me informou toda educada. O senhor logo pediu: – Me faça dois jogos do bolão, um da lotofácil, um lotomania e um da dupla sena, por favor. No mesmo momento segui o senhor como um cego sendo guiado na faixa de pedestres por seu cachorro labrador. Se ele tivesse pedido raspadinhas, o seguia sem receio.

- Me faça o mesmo, solicitei a atendente do caixa.

Terminando as apostas, desejamos sorte um ao outro e saí com muitos pensamentos desencontrados em minha cabeça. Será que fiz besteira ou isso sim foi uma atenção especial dos céus para comigo? Já estava certo de não jogar, como já tinha dito, nunca acreditei nessas coisas. E quando quero a atendente se engana, impedindo que eu entre no jogo, mas do nada me aparece um senhor, simplório e simpático, salvando-me a chance de ser o ganhador da sorte? A partir daí, concluí que fui iluminado nessa situação e não parei mais de encontrar relação de que aquele humilde senhor veio para trazer a boa nova do ano novo que eu precisava.

Me dirigi a uma padaria, pedi um café e sentei para refletir sobre toda a situação, pois tudo que tinha feito não havia passado pelo filtro das vontades que até então tinha. Passando-se meia hora da minha chegada, nesse momento já com duas canecas de chopp na cabeça, quem aparece do meu lado? O senhor, que eu o já chamava pelo nome Gabriel, (apenas um adento, quando o senhor me anunciou seu nome por Gabriel, fiz a relação das relações: Gabriel, pensei, o mesmo nome do anjo que anunciou a Isabel e a Maria a vinda de João Batista e de Jesus. Não pode ser possível, é o Gabriel que trará sim a boa nova para minha vida), batemos mais de uma hora de papo, gastei mais tempo e dinheiro que devia com o senhor, mas não por menos, seu Gabriel parece que me conhecia. Chegou com uma história de um amigo que tinha a mesma profissão que a minha e tinha-o desencontrado, ofereci-lhe ajuda, mas o mesmo disse que não havia problema com seu amigo, pois sabia que estava bem e sem perigos. Me despedi do senhor, peguei meu carro e vim para o meu destino. Rodando 1000 km não havia mais nada que me tirasse toda essa história da cabeça. Na viagem já sabia onde colocar cada centavo dos 280.000.000,00 (duzentos e oitenta milhões) de reais. - Planejamento é tudo, pensei.

Cheguei em casa muito cansado, mas não descansei antes de contar o caso para familiares e parentes, onde alguns se surpreenderam com fato, outros acharam que não passou de um episódio comum.

Mas no grande dia do resultado, não foi eu e nenhum conhecido que havia ganhado a grande bolada, mas sim funcionários de um hospital do câncer que fizeram o bolão na intenção de doar 50% do dinheiro para reformas e novos equipamentos para o hospital, gesto muito bonito. Se engana quem acha que fiquei chateado com o resultado, fiquei com aquilo ainda na cabeça, será que foi o planejamento que fiz do dinheiro depois do encontro com seu Gabriel? A verdade é que não era tão nobre quanto o do pessoal do hospital. Acreditei que fui punido por não fazer um planejamento tão bom. Perdi a sorte grande.

Tempos se passaram e no final do ano de 2019, volto na cidade de meu filho e antes de encontra-lo, vou na loteria para ver se reencontrava com o velho. Esperei por umas duas horas e nada de seu Gabriel. Me dirigi até o caixa e para minha “sorte” ainda era a mesma atendente do ano passado.

- Boa tarde, não sei se lembra de mim, mas estive aqui nessa mesma época no ano passado, falei para ela.

- Vixe moço, são tantas pessoas que atendo o dia todo aqui, e nessa época de bolão então...

- Vou refrescar sua memória, no dia fiz o mesmo jogo que um senhor de nome Gabriel me aconselhou, lembra?

- Hum, lembro sim, como não lembraria? Cometi um erro grave de falar a você que não tinha como mais jogar.

- Isso mesmo, animei com a lembrança dela.

- Aquele senhor que estava aqui de canto, seu Gabriel, ele é dono dessa lotérica e de algumas galerias de lojas assim como a padaria do outro lado do quarteirão, e nós que trabalhamos aqui, não o conhecíamos. Acredita que ficou uma semana fazendo jogo nessa mesma lotérica e andando por suas lojas como chefe misterioso até se encerrar o ano, só observando seus funcionários?

Nesse momento, minha ilusão divina tinha ido pelo ralo. Concordei com a cabeça para ela e a pedi que continuasse.

- Ele me deu uma bronca quando passei a informação errada para ti. Viu que quando abriu a carteira, o senhor seria um bom cliente potencial ao perceber sua identificação profissional do lado das notas de cem. Disse-me que se bem atendido faria muitos jogos conosco naquele dia. - Entendi, prossiga.

- Foi então que ele te chamou, e veio fazendo vários simulacros de jogos para que você, que já tinha visto a sua generosidade, fizesse o mesmo. Aquele homem não vale nada, concluiu ela. - Ok, muito obrigado pela informação. (- Sua cumplice do caralho, pensei).

- Ué, não vai fazer um joguinho hoje não?

 - Não, não, mais tarde quem sabe apareço.

- Não vai querer perder a sorte grande desse ano hein...

Saí daquele local com uma puta sensação de trouxa, e minhas analogias com aquele dia foi mais adequada com o filme “bíblico” do Ali Baba e os Quarenta Ladrões. Guardei essa descoberta apenas para mim que é: Todo cético no fundo, no fundo, tem esperança em algum mistério quando lhe convém; já basta eu trouxa para mim mesmo, agora para os demais da família e amigos. Não, jamais contaria. Fui embora do shopping center pedindo para que não encontrasse com seu Gabriel (chefe misterioso), pois a conversa não iria ser agradável como da outra vez.

Anderson Alves dos Santos é formado em Engenharia de Produção (embora ainda não tenha produzido nada). Possui 9 anos de experiência no mercado financeiro. Certificados: CPA 10 - ANBIMA e ANCORD - FGV. Concluindo MBA de Finanças - IBMEC.


Comentários

    Nenhum comentário, seja o primeiro a enviar.