Após vencer preconceito, baiana se torna marceneira e cria curso para outras mulheres: 'É possível'
- 08 Mar 2019
- 20:22h

Foto: Rogério Luiz
Mais que um curso, a oficina de marcenaria para mulheres que é ministrada pela baiana Eva Mota, é um ato de sororidade. O motivo? A professora começou a iniciativa para evitar que outras mulheres enfrentassem o preconceito e o assédio que ela sofreu no processo de aprendizagem do ofício, há alguns anos. Desde então, além de evitar o desgaste moral das alunas, a marceneira conta que tem mostrado para elas que é possível ir contra o convencional. "Eu estava exausta de ficar anos buscando conhecimento na área e ainda tendo que me proteger do machismo. Estava desgastada. Aí comecei a procurar cursos do jeito que sonhava: com uma mulher ensinando outras mulheres, com didática, acolhimento, diversão e colaboração. Passei meses indo atrás, ligando pra todas a regiões da Bahia e nada. Não encontrei. Aí lembrei de um e ensinamento que tive desde que comecei a empreender: 'Seja a mudança que você quer ver no mundo'. Então comecei a me preparar pra oferecer o curso que queria que existisse" Aos 34 anos, Eva dá aulas de introdução à marcenaria na Bahia e em São Paulo, onde mora temporariamente. A baiana conta que o desejo pela área surgiu durante a infância, quando via o interesse da mãe por móveis de madeira, e se intensificou na vida adulta, depois que parou de exercer a profissão de jornalista, há seis anos. "Desde pequena via o fascínio da minha mãe por móveis de madeira e ficava curiosa. Pra ela, toda madeira era mogno. Meus brinquedos, quando pequena, eram de madeira. Quando cresci, comecei a colocar a mão na massa e criar por conta própria. Quando deixei a carreira de repórter de televisão há seis anos fui estudar design de interiores, mas sempre quis mobiliário" Eva conta que começou estudando design de interiores, mas o que queria mesmo era partir para o mobiliário. Na época, buscou cursos na área, mas não encontrou nenhum presencial na Bahia, e fez alguns online. Pouco tempo depois, acabou participando de um curso básico em Salvador. Enquanto exercia a profissão de design de interiores, com a parte de planejamento, a baiana aprendia e buscava mais informações sobre a execução do trabalho. Eva conta que encontrava auxílio em marcenarias parceiras e em outras que encontrava durante o processo. Nessa busca, a ela sofria preconceito por ser mulher e chegou a ser assediada - o que para ela foi o extremo. "Era um incômodo constante ter que entrar e sair de marcenaria pedindo informação, mesmo quando eram com marceneiros parceiros de projetos de interiores. A gota d'água foi quando, em uma dessas tentativas de pedir informação pra criar uma peça, um assistente de marceneiro sugeriu que eu fizesse favores sexuais em troca da informação. Foi meu limite. Não era obrigada a passar por isso mais. E não queria que mulher nenhuma passasse. Que dependesse desses sistema castrador, violento, excludente, massacrante"."Ter esse tipo de conhecimento, da criação em madeira, devia ser acessível às mulheres. É mais uma arte e ofício que nos foram negados. Mas se dependesse de mim, não seria mais. Então fiquei 9 meses juntando grana, comprando máquinas, acessórios, adicionando ao que já tinha e, em dezembro de 2017, me reuni com 6 mulheres no interior da Bahia e dei minha primeira aula de introdução à marcenaria" Hoje, Eva conta que se sente realizada por cada mulher que participa do curso e pela independência que, de certa forma, é dada a elas, a partir do aprendizado. Durante entrevista ao G1, a baiana lembrou de um momento especial com uma das alunas. "Vejo mulheres em situações emocionais bem difíceis saindo com brilho nos olhos depois do nosso encontro. Uma vez, um filho de uma das alunas me enviou uma mensagem linda depois da oficina. Dizia assim: 'Eva, muito obrigada por ter devolvido a minha mãe. Essa mulher que chegou em casa sorridente e com um brilho nos olhos que eu não via há anos é a minha mãe'. É claro que eu abri a minha boca a chorar" O curso de Eva é intensivo e pode durar de oito a nove horas. Durante as aulas, mulheres que nunca tiveram contato com a marcenaria aprendem os princípios do ofício, e já saem com um pequeno móvel pronto, feito por elas mesmas. A baiana conta que o público da oficina é variado. Há mulheres que buscam a marcenaria como uma nova profissão e outras interessadas na área como um hobby. "Há quem veja na oficina uma chance de ter mais conhecimento e buscar uma renda extra, como já houve casos de meninas que ao saírem da oficina e entrarem no ônibus de volta pra casa receberem duas, três encomendas, assim, de vez. Mas também há muitas mulheres que vão pra dar o primeiro passo. Pra se permitirem, pra perderem o medo, pra buscarem mais autonomia e independência. Tenho visto transformações lindas" Emocionada, Eva comenta sobre o trabalho que faz. "Sempre digo que o meu intuito não é formar exímias marceneiras na Oficina de Introdução à Marcenaria para Mulheres. É apenas que elas comecem. É como se eu desse a mão a elas e dissesse que é possível fazer muito começando com pouco. É pra dizer a elas que podemos ser mais livres. São habilidades que estão acima da técnica. São habilidades pra vida"



















