De solução, Wagner virou problema para Dilma

  • Josias de Souza
  • 16 Jan 2016
  • 11:34h

Wagner entrou o ano de 2016 num paradoxo político (Foto: Daniel Simurro | Brumado Urgente)

O grave problema de nomear ministros duvidosos é o Diário Oficial não aceitar devoluções. Apresentado por Lula como solução para a chefia da Casa Civil, Jaques Wagner tornou-se rapidamente a penúltima dor de cabeça injetada pelo antecessor na conflagrada rotina de Dilma Rousseff. Há 11 dias, falando aos repórteres Valdo Cruz e Marina Dias, Wagner admitiu, num rasgo de sinceridade, que o PT lambuzou-se no poder. “Quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza'', disse, ao comentar os efeitos da Lava Jato. Súbito, a calda espessa do melaço tocou-lhe o bico do sapato. Governador da Bahia, Wagner importou da diretoria da OAS Manuel Ribeiro Filho. Nomeou-o secretário de Desenvolvimento Urbano do Estado. 

Pois bem. Na gestão de seu ex-funcionário, a mesma OAS abiscoitou no governo baiano uma obra de R$ 584 milhões, informa o repórter João Pedro Pitombo em notícia desta quinta-feira. Wagner diz que Ribeiro foi uma escolha “técnica”. O ex-diretor da OAS afirma que não interferiu na licitação. Abespinhou-se: “Isso me irrita, porque parece que trabalhar na OAS marca o DNA da gente. Trabalhei lá e não tenho o que esconder no meu currículo.'' A novidade chega nas pegadas da recente divulgação da comunicação eletrônica do dono da OAS, Léo Pinheiro, enrolado na Lava Jato. Nas mensagens, o empreiteiro que, na intimidade, chamava Lula de “Brahma”, referiu-se a Wagner como “compositor”, aquele que compõe com todo mundo. Léo Pinheiro tratava com Wagner de negócios baianos e brasilienses. Wagner pedia ao interlocutor verbas para campanhas eleitorais. Como se fosse pouco, o novo chefe da velha Casa Civil foi abolroado pela delação premiada do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró. Em depoimento à força-tarefa da Lava Jato, Cerveró disse ter endereçado propina para campanha de Wagner ao governo baiano, em 2006. Num instante em que articula a rejeição do pedido de impeachment contra Dilma na Câmara, o ministro tornou-se potencial protagonista de um inquérito esperando para acontecer. Dilma relutou em atender às ponderações de Lula. Para transferir Wagner da pasta da Defesa para o coração do Planalto, a presidente expurgou da Casa Civil aquele que considerava seu mais fiel auxiliar, Aloizio Mercandante. Devolveu-o ao Ministério da Educação. Mercadante também foi alvejado por um delator. Coordenador do cartel que pilhou a Petrobras, Ricardo Pessoa, dono da construtora UTC, disse ter repassado ao escudeiro de Dilma R$ 500 mil para a campanha de governador de São Paulo, em 2010 —R$ 250 mil no oficial e R$ 250 mil no caixa dois. Mas o processo contra Mercadante saiu do escaninho da Lava Jato. No STF, o inquérito que trata dos repasses a Mercadante migrou da mesa de Teori Zavascki, relator do escândalo da Petrobras, para a escrivaninha do ministro Celso de Mello. Nas profundezas de sua alma, Dilma deve maldizer Lula, lamentando a troca de um problema por outro maior. O diabo é que governar é a arte de desenhar sem borracha. E o Diário Oficial não aceita devoluções.


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