Papai Noel habita o imaginário infantil

  • Luana Almeida
  • 24 Dez 2015
  • 11:31h

Luciano da Matta | Ag. A TARDE

Quando acordar nesta manhã de Natal, Giovanna Comini, 5 anos, deverá encontrar o tão esperado presente na janela de casa, ao lado do tradicional sapatinho com o pedido, depositado no local na noite anterior. A garota não sabe, mas o cenário, típico de filme infantil, é montado pelo pai, Mário Comini, 45. Todos os anos, ele capricha nos adereços para tornar a fantasia que envolve a existência do Papai Noel mais real para a filha. A história em torno dessa figura - seja ela associada a São Nicolau ou ao velhinho de barriga protuberante, criado pelo desenhista alemão Thomas Nast - povoa o imaginário das crianças e é uma das poucas que resistiram à modernidade.

No entanto, é carregada de polêmica. Se, para algumas famílias, como a de Giovanna, o senhor barbudo, de vestes vermelhas, é sinônimo de bondade e solidariedade; para outras, é apenas um personagem criado para incentivar o consumismo.


Na casa dos Comini, a espera pelo Papai Noel tornou-se uma grande brincadeira que envolve toda a família. Juntos, eles decoram a casa com temas natalinos e  elaboram cartinhas com pedidos de presentes. E é esse clima de união que motiva Mário a incentivar a filha a crer na existência do Bom Velhinho.


"Fazemos questão de cumprir esse ritual de Natal. Reproduzo para minhas filhas o que aprendi com meus pais. Eles me ensinaram que, mais que dar presentes, o Papai Noel une nossa família", disse.


Quando o pequeno Davi Santana, de 4 anos, questionou a mãe, a advogada Luciana Santana, 47, sobre a existência do Papai Noel, ela não hesitou: tratou de contar, com jeitinho, que os presentes que ele ganhava no Natal eram comprados pelo próprio pai.


A atitude, mal interpretada por alguns familiares, na verdade, teve a intenção de poupar o garoto do trauma que ela sofrera na infância, quando descobriu que aquele senhor rechonchudo, que aparece nas embalagens do panetone, não passava de uma lenda.


Luciana conta que tinha 5 anos quando ouviu as tias comentarem o assunto. "Papai Noel era uma figura importante para mim, um herói. Chorei muito", relembra.


O trauma transformou o sentimento positivo que ela nutria pelo Bom Velhinho em revolta. "Aos poucos, comecei a reconhecê-lo apenas como um símbolo do consumismo. Não quis que meu filho passasse pelo mesmo trauma, nem que alimentasse essa cultura consumista", explica.


Fantasia x realidade

Apesar disso, o clima natalino não deixou de contagiá-los. Segundo ela, a essência da festa que ainda move a família. "Ainda que o Bom Velhinho não exista de fato, o que vale é o exemplo de bondade que ele renova em nós a cada ano. Digo ao meu filho que essa história de Papai Noel não existir é um segredo que deve ficar apenas entre a gente, para que ele não estrague a brincadeira dos colegas de escola e amigos do prédio", diz.


Para a psicóloga Juliana Pedreira, até que as crianças criem maturidade suficiente para compreender que tudo não passa de uma metáfora que vai além de um personagem da famosa marca de refrigerantes, o ideal é deixá-las livres para diferenciar, pouco a pouco, o real da fantasia.


"Incentivar o imaginário infantil irá contribuir para o desenvolvimento cognitivo. É comum que, com o avanço da idade, a criança vá desconstruindo a figura do Papai Noel", explica.


É neste momento, segundo ela, que o exemplo de bondade passado pelo personagem deve ser exaltado. "Por trás da história do nosso Bom Velhinho, encontramos boas mensagens para levar para a vida", disse.


Há seis anos, o aposentado Joaquim Berbel, 65, incorpora o personagem do Papai Noel em um grande shopping da capital baiana.  Durante 30 dias, sua poltrona é concorrida não apenas por crianças, mas também por adultos.


Por causa disso, elaborou a seguinte teoria: "Papai Noel resgata, a cada dezembro, a inocente criança que a vida adulta tenta tirar de nós o tempo inteiro".


Orientações importantes


Contar a verdade?

Para especialistas, o ideal é deixar livre para diferenciar o real e a fantasia. Estimular o  imaginário infantil irá contribuir para o desenvolvimento cognitivo da criança


Ele descobriu, e agora?


É normal que a criança, com o passar dos anos, comece a questionar os pais sobre a existência do Bom Velhinho. Mostre a ele que o exemplo de bondade trazido pelo personagem vai além do simples portador de um presente


Xô, consumismo!


Opte por brinquedos que estimulem a criatividade e a imaginação das crianças. Avalie se o pedido trata-se de uma “moda” ou de um real desejo