A cultura do jeitinho brasileiro

  • Por: Paulo Esdras
  • 15 Fev 2015
  • 14:15h

Numa sala de espera, conversa entre desconhecidos sobre as últimas notícias de corrupção do país. Todos que se envolviam no papo estavam indignados!

- Mas é mesmo uma pouca vergonha! Tem que enfiar o “empitiman” nela.

- “Impintman” é pouco! Deveria ir pra cadeia. O mal do brasileiro é passar a mão na cabeça dessa gente “currupta”.

- Passa a mão no dinheiro do povo e depois volta como senador, como fez o Collor de Melo.

- Só não passa a mão em mim que não sou bobo. Aumentou o preço da gasolina, repasso tudo pro passageiro. Esse que se lasca!

- Também, um monte de gente preguiçosa ganhando dinheiro do governo sem trabalhar! Dá nisso. Não se acha mais um vaqueiro pra trabalhar nas minhas fazendas. Qualquer um quer ganhar salário mínimo agora! Pode um negócio desses?

- Um absurdo... minha mulher sempre teve empregada doméstica. Quem disse que acha agora alguém que queira trabalhar sem carteira assinada? Tá ruim...

- Escândalo atrás de escândalo e ninguém faz nada. Quero ver até onde isso vai dar...

- Quem disse que não temos cultura? Esta é a cultura dos políticos brasileiros!

Neste momento, o vereador eleito olha pelo buraco da fechadura e observa na sala de espera todos os eleitores que tinham recebido algo pelo voto e vieram cobrar a dívida. 

A corrupção é um mal humano que é maximizado pela cultura do jeitinho brasileiro desde os tempos coloniais. A carteira de estudante falsificada, a propina para policiais corruptos, a falta de empatia com o outro são atitudes já entranhadas nos dizeres “farinha pouca, meu pirão primeiro” ou “se eu não fizesse, outro faria”. Se os políticos possuem este estigma de corrupto, de onde vieram os políticos se não do povo? O problema da corrupção é muito mais profundo do que qualquer sistema de combate que criarem na superfície do jogo político. Uma reforma política talvez dificulte mais um pouco as tramoias, porém para que possamos almejar uma cura – mesmo que parcial – deste câncer social que é a corrupção, deveríamos investir mais em Educação de Qualidade, Cultura, Projetos Sociais com letras maiúsculas. Na outra ponta, o sentimento de impunidade deveria ser combatido com uma fiscalização apartidária e permanente, pena em regime fechado sem direito a benefícios como indultos ou redução de pena. O crime de corrupção política deveria ser um crime hediondo, já que o dinheiro que é desviado pelo caminho e não é investido onde deveria, ceifa milhares de vidas e sabota milhões de famílias. A saúde precária, a educação em frangalhos e a crise instalada não é apenas incompetência na gestão do dinheiro público. É também o desvio rotineiro deste dinheiro para bolsos particulares de políticos inescrupulosos e dos seus aliados na sociedade civil. Como disse um dos delatores, estes desvios são “normais”, ocorrem em todas as licitações nas esferas municipais, estaduais e federal. Porém, tudo legalmente feito: Com propostas oficiais dentro do prazo, superfaturamentos com notas fiscais carimbadas e doações para partidos políticos como manda a lei.

*Paulo Esdras é comunicólogo, escritor, produtor cultural, professor e agente social. Sócio da TPM Produções e Mídia, Coordena o Movimento Cultural ABRACADABRA e é membro da ALAB - Academia de Letras e Artes de Brumado.