Trump corrói disposição de defender democracia multirracial nos EUA, diz professora americana
- Por Angela Boldrini | Folhapress
- 01 Nov 2026
- 10:16h

Foto: Reprodução / Agência Brasil
Durante seus estudos em direito em Harvard, nos anos 1980, Kimberlé Crenshaw foi convidada para um dos clubes exclusivos e prestigiosos da universidade. Ao chegar, descobriu que o local só aceitava que mulheres entrassem pela porta dos fundos. O colega homem que a tinha convidado, negro como ela, não a defendeu.
"A solidariedade só se aplicava às coisas que nos afetassem da mesma forma", escreve ela em sua autobiografia, "Backtalker: an American memoir" (ed. Simon & Schuster, 2026, sem tradução para o português). Ele estaria disposto a defendê-la de discriminação racial, mas não de gênero.
As duas questões, para Crenshaw, eram indissociáveis: ela não era apenas mulher ou negra, mas uma intersecção das duas características. Anos depois, já como pesquisadora, ela sistematizou a sensação de desamparo daquela noite e cunhou o termo "interseccionalidade".
A ideia de que as múltiplas camadas de identidade de uma pessoa se sobrepõem e produzem opressões específicas se tornou uma das principais bases dos estudos de gênero e de políticas públicas de diversidade e inclusão.
Agora, porém, tudo isso está ruindo, diz a professora da Universidade Columbia e da UCLA (Universidade da Califórnia Los Angeles) em entrevista à Folha.
Na tentativa de criar um consenso para derrotar o governo de Donald Trump —nas eleições de meio de mandato nesta terça-feira (3), mas também de forma geral—, a oposição tem se voltado contra grupos racializados e mulheres.
"A determinação de muitos que se consideram parte da coalizão democrata de sustentar uma democracia multirracial está sendo comprometida", afirma.
Crenshaw define a política Maga (Make America Great Again) como essencialmente racista, guiada por um sentimento de que os Estados Unidos estão sendo retirados dos brancos. "Fechar os olhos para isso, dizer que não podemos falar sobre o assunto ou que isso dificulta a construção das maiorias necessárias e, portanto, não podemos fazê-lo, significa aceitar que a sociedade continue sendo o que é", diz.
*Folha - A sra. já disse que o racismo contra pessoas negras é central para a política do Donald Trump. Por quê?*
*Kimberlé Crenshaw -* Um dos temas centrais que organizam tanto ressentimento e raiva, que são o combustível de grande parte da política Maga, é a ideia de que os eleitores cristãos brancos estão perdendo espaço.
O 6 de Janeiro [ataque ao Capitólio em 2021] é justificado porque estavam retomando seu país —a ideia de que a fonte da perda de seu direito de decidir são as comunidades negras e algumas latinas. Tudo é unido por um fio específico, segundo o qual aquelas pessoas não têm direito de estar onde estão, que é o "meu lugar".
Esse é um enquadramento que permite acreditar que suas violações da lei ou seu racismo são justificados. O racismo antinegro, especificamente, está na raiz dos ataques à diversidade, à equidade e à inclusão, aos direitos de voto, ao governo e ao Departamento de Educação. Ele é fundamentado na crença de que pessoas negras são menos qualificadas.
Toda a justificativa para nossa cidadania de segunda classe foi formulada em termos de nossa condição de "pessoas escravizáveis". O que fizeram conosco tornou-se uma característica essencial de quem somos. E essa parte da fundação dos Estados Unidos nunca foi realmente desconstruída. Portanto, ela continua por aí, como uma arma carregada, pronta para ser usada por pessoas como Trump e o movimento Maga.
*Folha - Trump também fez do controle da imigração uma de suas principais políticas. Até que ponto essa política diz respeito à imigração em si e até que ponto está relacionada à raça e ao tipo de Estados Unidos que seu governo deseja construir?*
*Kimberlé Crenshaw -* Acho que a resposta pode ser encontrada nos imigrantes que ele não quer e naqueles para os quais abriu as portas. Imigrantes sul-africanos, por exemplo, podem entrar sem apresentar uma história legítima de trauma, sem cumprir todos os requisitos tradicionais, particularmente quando solicitam asilo. Não precisam apresentar nenhuma evidência.
Enquanto isso, o presidente chamou outros imigrantes de pessoas indesejadas, vindas de "países de merda".
Está bastante claro que, mais uma vez, trata-se de um esforço para reforçar a ideia de que os Estados Unidos são um país de pessoas brancas e que fomos longe demais tentando defender que a raça não fosse uma condição de pertencimento.
*Folha Em outros momentos de avanços de direitos civis, já houve reações conservadoras nos EUA. O momento atual é diferente? É mais forte? Se sim, por quê?*
*Kimberlé Crenshaw -* Às vezes, a reação dura mais, é mais profunda e mais catastrófica do que o breve período de progresso que a antecedeu.
Veja a Reconstrução, por exemplo. Foi o período após a Guerra Civil Americana em que o governo apoiou, por um curto intervalo, o projeto de integrar as pessoas anteriormente escravizadas à cidadania. Foram aprovadas leis que garantiam direitos iguais de propriedade e de contratos, além de eliminar os obstáculos que nos impediam até mesmo de testemunhar em tribunais contra pessoas brancas. Foi criado o Freedmen's Bureau, e houve autorização para a construção de escolas.
Isso durou apenas oito anos e, então, foi derrubado. Suas consequências foram décadas de tirania racial, que duraram pelo menos 70 anos.
Essa é uma característica da nossa história: reformas modestas avançam e, em seguida, provocam uma reação contrária que não apenas dura mais, mas também aprofunda alguns dos padrões que as reformas tentavam eliminar.
Agora, talvez estejamos testemunhando uma reação à eleição do primeiro presidente negro [Barack Obama, eleito em 2008], seguida de outra reação ao movimento popular contra a violência policial antinegra [o Black Lives Matter, iniciado em 2013].
A questão é: até que ponto as pessoas preocupadas com a democracia estão conscientes de que não estamos falando apenas de um ciclo de dois anos ou de uma eleição presidencial? Que o que está em jogo é realmente o futuro do país, pelo menos durante este século, se não em parte do próximo?
*Folha - A esquerda no Brasil, assim como nos EUA, frequentemente afirma que, quando se dá muita atenção a questões de raça, gênero ou outros temas considerados "identitários", o foco se afasta das questões de classe e da desigualdade econômica, o que leva ao fracasso político e à ascensão da extrema direita. A sra. acha que esse é um problema político real?*
*Kimberlé Crenshaw -* Acho que essa crítica é o problema político real. Involuntariamente, ela revela como é limitada a compreensão de determinados setores da esquerda sobre a maneira como raça e gênero também são canais e reflexos da política de classe.
Na prática, quando analisamos os votos dos democratas na última eleição presidencial, constatamos que entre 92% e 94% das mulheres negras votaram contra o Maga. Entre os homens negros, foram 87%.
Mas essas pessoas não recebem o reconhecimento de que compreendem as questões de classe. Não recebem o reconhecimento de que são antiautoritárias. Isso acontece porque, para muitas pessoas da esquerda, o voto da classe trabalhadora é representado por homens brancos.
*Folha - Como acha que essas questões vão se manifestar nas eleições de meio de mandato?*
*Kimberlé Crenshaw -* A questão é quanto ressentimento e arrependimento existem em relação a uma guerra [do Irã] que nos prometeram que nunca aconteceria, aos preços que dispararam, à corrupção que afeta o orçamento da maioria dos consumidores, além do desmonte de alguns dos acordos básicos sobre o que constitui uma política legítima e o que é apenas tirania sob outro nome. Até que ponto esses sentimentos vão impulsionar o comportamento político?
A outra é quão eficazes serão os esforços para reprimir a política e a participação democrática.Temos uma Suprema Corte claramente alinhada às sensibilidades de Trump e que, consequentemente, esvaziou uma lei de direitos civis —a Lei dos Direitos de Voto— que estava em vigor havia seis décadas.
Esse ataque ao direito de voto está enraizado em ideias racializadas sobre quem está qualificado para votar. A lei está sendo usada de acordo com a ideia de que este é um país de pessoas brancas.
Suspeito que o resultado será uma combinação entre o grau de indignação das pessoas diante do que fizeram com nosso Estado, nosso governo, nosso país e nossa economia, e a eficácia dos esforços para sufocar a dissidência e a participação democrática, limitando essa indignação.
*Folha - Como acha que os anos Trump vão impactar as próximas gerações?*
*Kimberlé Crenshaw -* Algumas pessoas acreditam que o trumpismo precisa de Trump para continuar causando danos. Seria como uma gripe forte ou até um tornado: causa estragos, mas logo passa.
Outras pessoas, entre as quais me incluo, veem um colapso fundamental das ideias, dos acordos tácitos e do processo de 50 anos de construção de medidas e instituições democráticas destinadas a corrigir alguns dos erros do sistema. Essas instituições foram criadas para abrir caminhos que permitissem às futuras gerações ter maior acesso à riqueza do país e às oportunidades, além de evitar que fossem empurradas para alguns dos aspectos mais horríveis da sociedade americana.
Os ataques não poderão ser revertidos da noite para o dia. Essas estruturas levaram uma geração e meia, ou até mais, para serem construídas. E foram derrubadas praticamente da noite para o dia.
O que me preocupa ainda mais, se é que é possível imaginar algo pior, é que a determinação de muitas pessoas e grupos que se consideram parte da coalizão democrata de sustentar uma democracia multirracial também está sendo comprometida.
Ouvimos [o historiador] Timothy Snyder usar o termo "conformidade antecipatória". Eu acrescentaria a isso uma espécie de apagamento afirmativo. Não vemos muitas pessoas da comunidade progressista lamentando a perda do consenso de que somos uma sociedade pós-segregacionista, pós-escravidão e pós-genocídio.
Nunca deixaremos de ser uma sociedade marcada por essas histórias. Fechar os olhos para isso, dizer que não podemos falar sobre o assunto ou que isso dificulta a construção das maiorias necessárias e, portanto, não podemos fazê-lo, significa aceitar que a sociedade continue sendo o que é.
E é isso que me causa desespero. A luta já seria suficientemente difícil se estivéssemos todos de acordo sobre o que precisamos defender. Mas ainda não chegamos a um consenso sobre isso.
*Folha - Nas suas memórias, a senhora conta que seus pais estavam envolvidos em protestos e na luta pela igualdade racial. Existe hoje esse tipo de inspiração?*
*Kimberlé Crenshaw -* Nossa tarefa neste momento é resistir ao acordo com o retrocesso, resistir à restauração de antigas estruturas e resistir, em nome de nossos filhos, a uma história que lhes será contada sem a verdade. Nasci antes da aprovação das leis e da implementação das políticas destinadas a desmontar a supremacia branca. Nasci antes de sermos realmente uma democracia.
Ainda assim, meus pais acreditavam nessa possibilidade. Eles moldaram minha educação e até mesmo as conversas à mesa do jantar de maneira que nos tornássemos conscientes das restrições existentes, esperançosos em relação às oportunidades que estávamos lutando para tornar reais e preparados para aproveitá-las quando as barreiras caíssem.
É disso que precisamos neste momento: a mesma consciência, preparação e capacidade de imaginar uma realidade diferente.
*RAIO-X | Kimberlé Crenshaw, 67*
Formada pela Universidade Cornell, estudou direito em Harvard e leciona em Columbia e na UCLA (Universidade da Califórnia Los Angeles). Nos anos 1980, sistematizou o conceito de interseccionalidade, que analisa como diferentes formas de discriminação se sobrepõem. Cofundadora do African American Policy Forum, lançou a autobiografia intitulada "Backtalker" em 2026.
