Além das Manchetes: Moletom, engajamento e prosperidade
- Por Malu Fontes I Bahia Notícias
- 14 Out 2026
- 10:49h

Foto: Reprodução/ Redes sociais
Depois de Lula declarar em sua primeira fala pública após o primeiro turno que estava convencido de que iria vencer as eleições, o que parece é que seu eleitorado e parte dos indecisos ou ausentes, mas nem tão anti assim, compreenderam o contrário, projetado para o futuro: a direita bolsonarista vai vencer se não se fizer alguma coisa. Algo perto dessa percepção explica o que vem acontecendo do final de semana para cá nas ruas de várias metrópoles brasileiras.
As imagens da Avenida Paulista, da Praia de Copacabana, da Barra, de Recife ou da UnB, em Brasília, não são apenas a ilustração de uma campanha do segundo turno bem diferente da primeira, na rua. O telejornalismo, os feeds das redes, a imprensa estrangeira mostram uma reação que estremeceu e trincou o tom de vitória visto nos discursos da campanha de Flávio Bolsonaro. Antes deste final de semana Flávio se comportava como o quase eleito, falando de medidas, mudanças e nomes para seu governo, não como o candidato com votos a serem conquistados.
Como em tempos de redes todo mundo precisa de uma imagem do dia, da semana ou do fenômeno descrito, os movimentos de rua deram à campanha de Lula no domingo uma imagem e tanto para chamar de sua: o homem sem camisa e com uma calça de moletom sobre marquise de metrô na Avenida Paulista. De “muita massa magra” a “gostoso da campanha” e “meu homem, minha vida”, Israel Augusto (segundo informações que circulam nas redes esse é o seu nome) foi chamado de tudo e catapultado para o posto de dono da imagem indiscutível da campanha do segundo turno nas ruas. Além de muso indiscutível dos memes.

Ponte sobre rio Capiberibe, em Recife, tomada por apoiadores de Lula no último domingo (11) | Foto: Paullo Almeida / Folha de Pernambuco
Até ontem nada se sabia, além deste nome, do personagem anônimo mais reproduzido da campanha eleitoral no segundo turno nacional. Mas em seu perfil nas redes, com raras publicações, já estava lá o @ da assessoria. De campanhas de marcas de moletom a sites gays e academias, o que não deve estar faltando são convites de todos os tipos econômicos e morais para o moço. Nem os recém-saídos do BBB durante o Carnaval, disputados por currais vips Brasil afora, jamais foram içados de modo tão rápido à fama nacional.
DE BARRIGA A VERBO
Mas como não só de barriga de tanquinho pode viver a crônica eleitoral, começamos a semana com um verbo disputado a tapa entre esquerda e direita: prosperar. Quando há algum tempo se falava em teologia da prosperidade em algumas denominações evangélicas, esse pacto com a fé que substituía o futuro bem-aventurado no reino dos céus pelo aqui e agora, não imaginaríamos que prosperar e prosperidade fossem alçados ao vocabulário dos palanques como hashtags valiosas.
Após tomar uma surra de votos dos pobres empreendedores que foram ridicularizados com a pecha de “CEO de MEI”, a esquerda fez muito rápido o contorcionismo no vocabulário. Agora, assume o comprometimento com a prosperidade de quem não quer estudar e passar o resto da vida numa sala de telemarketing ou sem chances de sair do emprego no comércio do bairro periférico onde vive.
Do seu até então conforto sobre os milhões de votos de vantagem no primeiro turno, Flávio também tem se contorcido e adotado novos pontos de vista, forçado pelas circunstâncias e pelo crescimento do engajamento de Lula nos últimos dias. Após defender a flexibilidade de as pessoas trabalharem e serem remuneradas por horas trabalhadas, foi atingido pela reação negativa e anunciou que vai votar a favor do fim da escala 6x1. Gente na rua e queda de engajamento produzem efeitos colaterais muito rápido quando se tem pouco mais de uma semana para ganhar ou perder uma eleição.
Seja por conta de um moletom sem camisa numa marquise, seja pela adoção forçada do tema da prosperidade ou da ideia de introduzir a remuneração por horas trabalhadas, o fato é que o embate Lula versus Flávio passou por uma transformação inesperada e desfavorável para a campanha bolsonarista. O engajamento da campanha de Lula quadruplicou em uma semana e o candidato ganhou duas vezes mais seguidores que seu concorrente no mesmo período. Até o dia 25, ninguém vai ter vida fácil. Nem nas ruas nem nas redes.
Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora do Curso de Jornalismo da UFBA
@maluzes [email protected]
