Cúpula dos 30 anos do Mercosul termina em bate-boca e retrata o pior momento do bloco

  • Janaína Figueiredo | O GLOBO
  • 26 Mar 2021
  • 18:14h

O presidente argentino, Alberto Fernández, durante discurso no encontro virtual do Mercosul Foto: ESTEBAN COLLAZO / AFP

O motivo do encontro era a comemoração dos 30 anos do Mercosul, nascido em 26 de março de 1991, mas acabou se transformando num retrato da profunda crise em que o bloco se encontra mergulhado. Discursos desconexos e, no final, um bate-boca explícito entre os presidentes da Argentina, Alberto Fernández, e do Uruguai, Luis Lacalle Pou, que, na fala mais enfática da cúpula presidencial, afirmou que o Mercosul não pode ser uma "carga" nem um "espartilho" para os países que o integram. A resposta de Fernández, que nesta semana deixou o Grupo de Lima, foi fulminante: "Se a carga é muito pesada, o mais fácil é descer do barco".

— Terminemos com essas ideias, num momento táo difícil. Não queremos ser uma carga para ninguém, se somos uma carga, que nos deixem — declarou o presidente argentino, anfitrião do encontro virtual, num final improvisado, que contrastou com seu discurso de abertura, que foi lido.

O presidente Jair Bolsonaro não acompanhou o momento tenso, já que tinha avisado minutos antes — por WhatsApp, informaram fontes argentinas — que abandonaria o encontro por motivos de agenda. Fontes brasileiras consideraram "desnecessária" e "mal educada" a atitude de Fernández. Em sua breve participação, Bolsonaro também pregou, em sintonia com o Uruguai, a modernização do bloco.

Fernández também anunciou a criação de observatórios do bloco sobre democracia e meio ambiente, sem dar mais detalhes sobre as iniciativas. Segundo fontes brasileiras, as propostas não foram previamente conversadas com os demais sócios e são, em palavras de uma delas, "coisas da cabeça de Fernández que nunca sairão do papel". Em Buenos Aires, fontes argentinas informaram que a ideia de criar um observatório do meio ambiente tem como objetivo rebater críticas à região — leia-se, ao Brasil — por parte, sobretudo, da União Europeia (UE). Hoje, a questão do meio ambiente é o principal obstáculo para que seja ratificado o acordo de livre comércio entre os dois blocos, firmado em 2019.

As divergências entre os sócios do Mercosul nunca foram tão evidentes numa cúpula presidencial. Sabe-se, faz tempo, que o Uruguai está insatisfeito e pretende flexibilizar regras do bloco para avançar em negociações comerciais com outros países e regiões. Essa posição é acompanhada pelo governo brasileiro, mas enfrenta resistências da Argentina e do Paraguai. A flexibilização desejada por brasileiros e uruguaios implica, principalmente, modernizar a Tarifa Externa Comum (TEC), que taxa produtos de fora do bloco, e as regras da chamada Resolução 32.00, que exige consenso entre os membros em negociações externas