Baiana Verônica Almeida fala sobre Paralimpíadas: 'não é esporte de coitadinho ou super-herói'
- 07 Set 2016
- 16:03h

Verônica Almeida se prepara para disputar sua terceira Paralimpíada (Foto: Mauro Akin Nassor/Arquivo CORREIO)
Ela foi a primeira mulher brasileira a conquistar uma medalha em Pequim-2008, quando levou o bronze em apenas seis meses de prática como atleta paralímpica. Entrou para o Guiness Book – o livro dos recordes – ao completar a travessia Mar Grande-Salvador nadando borboleta com um braço só. Agora, busca a primeira medalha paralímpica de ouro da carreira. Super-heroína? Não. Verônica Almeida dispensa o rótulo. “Atleta paralímpico não é super-herói. É atleta de alto rendimento, que treina e se dedica como qualquer outro atleta ‘normal’, como as pessoas chamam”. Parece clichê, mas a baiana, 41 anos, nascida em Salvador, é mesmo uma mulher retada. Portadora da Síndrome de Ehlers-Danlos, doença rara e degenerativa que interrompe a produção de colágeno pelo corpo, ela vai para a sua terceira Paralimpíada e já está garantida em pelo menos três provas. A estreia no Rio 2016 será sábado, quando nadará os 100m peito SB7. No dia 12, disputará os 50m borboleta S7, prova que lhe rendeu a medalha de Pequim. No dia seguinte, terá pela frente os 200m medley SM7. Verônica ainda não sabe se será escolhida para nadar o revezamento 4x100m livre, no dia 15.
Que ela é boa no que faz, está claro. As medalhas e feitos estão aí para provar. Mas o legado que a nadadora quer deixar vai além dos troféus. “O esporte paralímpico tem crescido muito, a visibilidade é outra. Deixou de ser esporte de coitadinho ou de super-herói. Não somos nada disso. Não gosto desse rótulo. A pessoa com deficiência não tem que ser vítima. Sou totalmente contra quem enxerga assim”, afirma Verônica. “Não gosto quando as pessoas dizem que saíram os atletas e entraram os super-heróis. Claro que não. Continuam os atletas. Não sou a Mulher Maravilha. Todo mundo que estará lá, lutou muito para conseguir a vaga. Acho que podemos, sim, servir de inspiração, fazer as pessoas reclamarem menos. E só”, completa, com firmeza, mas muita serenidade. E é com esse espírito que ela quer representar o Brasil no Rio 2016. “Por ser em casa, é outro espírito, outro clima, outra energia. Dá um frio na barriga. Ao mesmo tempo que todo mundo te empurra, a cobrança por medalha é enorme. Eu vou cair na água para fazer o meu melhor. Todas as vezes que eu vou competir é com esse pensamento. Tomara que venha uma medalha. Experiência conta muito. Hoje, tenho concorrentes muito mais novas, o que é bom e ruim. Levo vantagem pela maturidade de encarar a prova, mas por outro lado, elas são bem mais novas”, avalia.
Brilho especial
Verônica ainda não sabe se estará no pódio do Rio 2016, mas lembra bem da primeira vez que conquistou uma medalha de ouro na carreira. Foi quando ela tinha apenas 9 anos - e ainda não tinha a síndrome, desenvolvida já na fase adulta -, em uma pequena competição realizada em Feira de Santana. Se hoje Verônica Almeida é uma das melhores nadadoras paralímpicas do mundo, é também fruto da dedicação da avó, dona Maria, já falecida. “Ela sempre me fez acreditar e nunca me deixou desistir”, lembra com carinho.
Inspiradora
Se hoje Renê Pereira é atleta paralímpico, é também graças a Verônica Almeida. E quem conta essa história é a nadadora. “Renê sempre fala que começou mesmo no esporte por causa de mim. É um orgulho. Hoje, ele é referência”, diz Verônica. Ele fala dela com carinho. “Uma vez encontrei ela na piscina da Fonte Nova, logo quando ela voltou com o bronze de Pequim. Quando toquei naquela medalha, decidi que queria uma. Ela me fez querer ser atleta profissional”, explica Renê, que trocou a natação pelo remo por causa do seu biotipo.
