Os caminhos de um país dividido
- Por Marisa von Bülow
- 23 Mar 2016
- 09:31h

(Foto Ilustrativa)
Segundo pesquisas de opinião recentes, a maioria dos brasileiros é favorável ao impeachment da Presidente. No entanto, as mesmas pesquisas também mostram que uma expressiva minoria permanece contrária. Além disso, mesmo entre os apoiadores do impeachment existem importantes questionamentos sobre a legalidade e a legitimidade do processo. Uma questão central, por exemplo, é se o atual Presidente da Câmara, Eduardo Cunha, tem legitimidade para encaminhar o processo. Pela primeira vez, desde o início da crise, críticos do impeachment e da Operação Lava Jato realizaram protestos massivos em todos os Estados do país, sob o lema da defesa da legalidade democrática. Muito já tem sido discutido sobre a polarização política no país. Com o objetivo de entender melhor essas divisões, fizemos um monitoramento das comunicações entre usuários de quatro hashtags no Twitter (entre os dias 17 e 20 de março): #ForaDilma, #EmDefesaDaDemocracia, #TodosPelaDemocracia e #NãoVaiTerGolpe. O resultado pode ser visto no gráfico abaixo. Cada círculo representa uma conta, que está conectada a outra por ter reencaminhado uma mensagem e/ou citado essa outra conta (retweets e quotes). O tamanho dos círculos reflete a quantidade de vezes que essas contas foram citadas. No total, foram mapeados 72.038 vínculos.

A primeira coisa que salta aos olhos é que existem duas redes claramente separadas. Uma mais densa, no alto e à direita do gráfico, e outra mais fragmentada, abaixo e à esquerda, sem pontes que as unam. Aqueles que defendem o #ForaDilma, por um lado, e aqueles que usam os hashtags contra o golpe e a favor da democracia, pelo outro, não conversam entre si. Não é possível generalizar esses achados para outras plataformas (como WhatsApp e Facebook), mas os dados passíveis de coleta e análise são importantes porque o Twitter tem sido amplamente utilizado como plataforma de divulgação e mobilização.
Como argumentamos em coluna anterior, o resultado dessa polarização é uma conversa viciada, que se dá principalmente entre pessoas que pensam de maneira similar. Essas interações nos projetam em um mundo distorcido, onde vivemos na ilusão não só de que somos maioria, mas também que detemos a verdade.
Quando se trata de entender o outro, estamos de olhos fechados e ouvidos tapados.
Para além dos estereótipos
Coxinhas e acarajés, petralhas e fascistas, heróis e vilões. Essa construção de estereótipos não é neutra e nem espontânea. O uso desse tipo de dicotomias é velha estratégia política, que busca deslegitimar, por definição, quem pensa de maneira diferente.
Uma análise mais cuidadosa das redes mapeadas mostra que os dois campos nos quais o país está dividido são internamente heterogêneos e não resistem a fáceis caracterizações. A rede do #ForaDilma, por exemplo, reúne um caleidoscópio de opções políticas. Temos desde os raivosos setores anti-democráticos, que defendem a volta dos militares ao poder, até pessoas que votaram em Lula e Dilma e hoje estão decepcionadas. Frente a essa heterogeneidade, unem-se pragmaticamente em torno de um mínimo denominador comum, que é a defesa do impeachment da Presidente, com base em um discurso geral de necessidade de luta contra a corrupção.
Quanto ao outro campo, não pode ser carimbado como “pró-PT”, nem como o grupo de defesa do ex-Presidente Lula, ou da Presidente Dilma. Isso pode ser visto claramente a partir da análise de conteúdo das mensagens que usam a hashtag #TodosPelaDemocracia, que não necessariamente incluem palavras ou hashtags de apoio explícito ao ex-presidente Lula ou ao governo. Para muitos que foram às ruas no dia 18, a motivação para manifestar-se deriva da preocupação com a legitimidade e a legalidade das ações recentes de juízes, procuradores, policiais e parlamentares. Entre estes também não há consenso sobre o que fazer após a crise. Estão unidos em torno do princípio de que os meios não podem justificar os fins em um regime democrático.
É fundamental considerar os acordos e as diferenças internas a esses dois campos, porque senão corremos o risco de subestimar (ou exagerar) a sua importância e de errar nas análises sobre seus potenciais impactos. A indignação e a vontade de combater a corrupção não são privilégios de uns nem de outros. É impossível entender o grande apelo que as ruas têm tido para aqueles que se manifestam contra o governo, se simplesmente as virmos como fascistas ou como uma elite que quer manter seus privilégios. Ao mesmo tempo, a rede que formam é de laços fracos. Não sabemos o que será do movimento pró-impeachment no futuro. Não sabemos para onde serão canalizadas suas preferências políticas. Trata-se de uma rede dinâmica e volátil.
Quanto às manifestações do último dia 18, é simplista e errado denominá-las simplesmente como “pró-governo”, caracterização que permitiria desprezá-las como uma iniciativa desesperada de uma minoria não significativa, que busca manter-se no poder a qualquer preço. Esse tipo de avaliação torna impossível entender quão disseminado e profundo é o incômodo frente a algumas iniciativas de juízes e promotores, incômodo inclusive de setores do próprio Judiciário e da academia. O significado do dia 18 vai bem além da defesa do PT ou de lideranças específicas.
Reféns da polarização
Em artigo publicado recentemente, Átila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional, propôs como caminho possível o relançamento do Movimento pela Ética na Política da década de 1990, desta vez em bases mais amplas, que incluam o Poder Judiciário.
Esse tipo de iniciativa é crucial, mas não será fácil viabilizá-la no atual contexto. Mesmo termos amplos e supostamente consensuais, como “luta contra a corrupção” e “defesa da democracia”, são disputados e interpretados conforme a divisão política que o Brasil vive hoje.
Somos, enfim, reféns de uma polarização cuja superação é necessária e urgente, mas difícil de alcançar no curto prazo.
Escrito em colaboração com Ariadne Santiago e Tayrine dos Santos Dias, estudantes de mestrado em ciência política do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília.
