Temperatura na Terra deve subir 2º e intensificar extremos de chuva e seca

  • 26 Set 2015
  • 09:03h

(Foto: Correio 24h)

Salvador teve, entre os meses de abril e junho deste ano, as chuvas mais fortes dos últimos 20 anos, segundo órgãos responsáveis. Do outro lado, já em 2012, a Bahia passou pela maior seca dos últimos 60 anos - e sobreviveu aos tropeços à estiagem que persiste. Pois, o futuro não é muito animador. Diante de um cenário de altas emissões de gases que provocam o efeito estufa, as mudanças climáticas previstas por especialistas devem incluir que esses extremos  - muita  chuva e muita seca - sejam mais comuns. “A gente sabe que os eventos extremos serão mais frequentes e duradouros, com maior intensidade. E esses eventos vão estar relacionados à água. Porque a água é aquela coisa que o ideal é nem tanto nem tão pouco”, diz o coordenador do Instituto Virtual Internacional de Mudanças Globais, Marcos Freitas, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Até 2100, a temperatura do mundo vai aumentar - quanto a isso, não dá mais para voltar atrás. Agora, a questão é como fazer com que ela não aumente demais. A meta da comunidade internacional é manter esse crescimento de temperatura em até 2°C. Mas, se o mundo continuar produzindo em excesso gases do efeito estufa, o número pode dobrar - há quem acredite que chegaria até a 7°C. 


 

Desequilíbrio
Agora, você pensa: por que dois graus a mais ou a menos fariam tanta diferença? Por que um dia com 30°C  seria um pior do que outro cuja máxima registrada foi de 28°C? De fato, como o ser humano tem facilidade de adaptação, talvez nem dê para notar que houve alguma diferença.  “O que vai dar para perceber mesmo é a variação nos extremos. O problema, do ponto de vista do conforto térmico, vai ser um desequilíbrio na fauna e na flora. Poderá causar extinções enormes de organismos em algumas regiões”, alerta o coordenador de monitoramento do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) do Estado, Eduardo Topázio.  No entanto, desequilíbrio na biodiversidade não significa só que bichinhos e plantinhas podem desaparecer. Mesmo com a facilidade para se adaptar, a qualidade de vida dos humanos vai piorar. A partir disso, podem vir desde falta de alimentos, maior vulnerabilidade a desastres naturais, epidemias e até deslizamentos de terra. As chuvas no Nordeste também vão diminuir, apontam especialistas.

Efeito dominó
A situação se agrava quando percebemos que, desde a seca de 2012, a produção de energia a partir de usinas termelétricas no Brasil tem crescido, enquanto as fontes hídricas têm diminuído. “Em 1988, 85% de nossa capacidade instalada era de hidrelétricas. Hoje, é de 75%. Apesar 
de ter entrado a eólica, o maior crescimento é das termelétricas, que são à base de diesel,  de óleo combustível, gás natural e carvão. O setor de energia está mais carbonizado do que no passado”, afirma Marcos Freitas. Só que uma coisa puxa a outra. Quanto mais se consome energia mais gases são produzidos. Mais carros na rua, mesma coisa. Mais calor significa mais ar-condicionado. Resultado? Mais consumo de energia, mais gases. “Em São Paulo, quase 50% das emissões vêm do transporte. A saída é investir no transporte público, na bicicleta...”, exemplifica André Nahur. Em Salvador, o inventário dos gases do efeito estufa, divulgado com exclusividade pelo CORREIO, mostra que transportes são responsáveis por 74% das emissões na capital baiana. “Além disso, devemos repensar ambientes climatizados e encontrar solução para reduzir a sensação térmica onde você estiver”, lembra André Nahur.  No caso de Salvador, há outro problema: trata-se de uma cidade litorânea. Como o planeta está mais aquecido, geleiras estão derretendo. Assim, o mar passa a ter mais água e, com isso, seu nível sobe. “A gente não tem noção  de como vai acontecer, mas algumas áreas já sofrem inundações. Eu não compraria uma casa à beira-mar”, pondera Marcos Freitas.

1- Aumento do nível do mar Como o planeta está mais quente, as geleiras começam a derreter - o que significa mais água no mar. Cidades litorâneas - como Salvador - podem sofrer inundações e até desaparecer. 

2 - Epidemias de doenças   Se a ocorrência de algumas doenças tropicais estava restrita a uma região, a coisa mudou. É o caso da dengue, que agora está presente até em zonas temperadas, como a Europa. 

3 - Desequilíbrio ecológico Espécies da fauna e da flora podem desaparecer por completo. Na prática, para os humanos, pode significar desde a falta de alguns alimentos até problemas de saúde. 

4 - Extremos duradouros  Não apenas é possível ter mais chuvas fortes e secas mais prolongadas, como furacões e tornados podem se tornar mais comuns no Sul do Brasil. 

5 - Falta de energia  A maior parte da energia no Brasil ainda é proveniente de usinas hidrelétricas. Porém, como o nível dos reservatórios está baixo (no Nordeste, na última semana, era de 14% da capacidade), as termelétricas entram em cena: só que elas produzem mais gases estufa, os principais responsáveis pelas mudanças climáticas.