Isolamento é prioridade absoluta, diz Nicolelis, cientista do Consórcio Nordeste

  • Redação
  • 06 Abr 2020
  • 11:59h

Médico afirma que "estamos em uma guerra" e projeta o inverno como pico para outras infecções em meio à pandemia do coronavírus | Imagem: Reprodução/YouTube

Um dos coordenadores do comitê científico montado pelo Consórcio Nordeste, o médico e premiado neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis afirma que o isolamento social é a prioridade absoluta nesse momento da pandemia do novo coronavírus. Em entrevista ao portal UOL, ele diz que ainda é muito cedo para repensar a medida. “Nesse momento é consenso que o isolamento social é essencial. A posição do comitê é de que a prioridade zero é o distanciamento social, como preconizado em todo o mundo e já defendido pelo consórcio dos governadores do Nordeste. Não há prazo [para acabar esse isolamento]”, afirmou.

Pós-doutor em fisiologia e biofísica e professor e codiretor do Centro de Neuroengenharia da Universidade Duke, nos Estados Unidos, Nicolelis disse à publicação que “estamos numa guerra”.

Além dele, o comitê científico do Nordeste é coordenado pelo físico e ex-ministro Sérgio Rezende. O grupo de trabalho foi idealizado pelo governador baiano Rui Costa (PT).

Inverno terá cenário preocupante

Em sua avaliação, com a chegada do inverno, o país enfrentará um cenário problemático na rede pública, devido à confluência de doenças como influenza, dengue e chikungunya com a Covid-19.

“É preciso lembrar que estamos entrando no outono e vamos entrar no inverno, período de pico para infecções. E vamos ter uma tempestade perfeita para a confluência dessas doenças com o coronavírus. Doenças como influenza, dengue e chikungunya —essas duas últimas não são endêmicas na Europa e nos Estados Unidos”, observou.

“Nosso problema aqui pode ser cumulativo, porque os casos de coronavírus podem ocorrer junto com outras doenças ao mesmo tempo, e o sistema de saúde ser completamente inundado com pacientes.”

O trabalho de Nicolelis ganhou destaque na mídia durante a abertura da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, quando um exoesqueleto criado por ele possibilitou ao paraplégico Juliano Pinto dar um chute leve numa bola.

Calor não controla a pandemia

Na entrevista ao UOL, o neurocientista explicou que o ciclo da gripe no Brasil é medido pelo começo em Fortaleza. “Um dos pesquisadores de lá nos informou que, no Brasil, ela começa a aparecer quando surgem os primeiros casos no Ceará. E já começaram a aparecer. É como se tivesse um alerta inicial para o Brasil. Podemos ter a confluência de todas essas moléstias infecciosas”, relatou.

Nicolelis diz não crer que o vírus vá apresentar taxa reduzida de transmissão em locais mais quentes, como é o caso atual da região Nordeste.

“Isso ainda não está claro. Existe gente estudando no mundo inteiro. Nos Estados Unidos, havia a sensação de que o vírus não chegaria ao sul do país tão rapidamente, mas no mapa já vimos que ele explodiu em Miami, em Los Angeles, em Nova Orleans. Conheço bem essas cidades, realmente não esperava que [o surto de Covid-19] fosse tão grande e tão rápido. Se o que está ocorrendo nos Estados Unidos for o padrão, não há uma diminuição de circulação do vírus por um aumento de temperatura”, finalizou.

O neurocientista elogiou a decisão dos governadores de contratar cientistas para embasar as decisões e disse que o modelo deve ser seguido por todos.

“Nesse momento é consenso que o isolamento social é essencial. A posição do comitê é de que a prioridade zero é o distanciamento social, como preconizado em todo o mundo e já defendido pelo consórcio dos governadores do Nordeste. Não há prazo [para acabar esse isolamento]”, afirmou.