Aumento no nº de feminicídios leva jovens a criarem app que incentiva mulheres a denunciar violência

  • 15 Abr 2019
  • 09:07h

Foto: Arquivo pessoal

O aumento no número de feminicídios no estado da Bahia nos últimos anos causou preocupação em dois ex-estudantes de uma escola da rede pública estadual, em Salvador, que se uniram para criar um aplicativo com o objetivo de incentivar mulheres a denunciar casos de violência. A ferramenta, batizada de ‘Conscientizando’, está disponível para celulares com o sistema Android. Os idealizadores são Alan Robert do Carmo, de 18 anos, e Carlos Eduardo Soares, de 19. Em 2018, 70 feminicídios foram registrados em todo o estado da Bahia, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP-BA). Comparando ao ano anterior, houve um aumento de 6,1% nos casos — em 2017, o estado registrou 66 feminicídios. Em todo o país, o número de mulheres mortas em crimes de ódio motivados pela condição de gênero também subiu — foram 1.173 no ano passado, ante 1.047 em 2017. Em 2019, a SSP-BA ainda não divulgou dados de feminicídios. Nos 95 primeiros dias do ano, somente as duas delegacias especializadas de atendimento à mulher de Salvador, localizadas nos bairros de Periperi e Brotas, contabilizaram mais de 3 mil denúncias de violência contra mulheres. Os estudantes dizem que não houve na família deles nenhum registro de violência, mas que se mobilizaram pela quantidade casos que viram nos jornais nos últimos tempos. "O que nos motivou a criar o aplicativo foi presenciar nos jornais o absurdo do aumento de casos feminicídios, que infelizmente estamos vendo todos os dias", diz Alan. Ele e Carlos tiveram a ideia de criar o aplicativo quando cursavam o 3º ano do ensino médio no Colégio Estadual Sete de Setembro, no bairro de Paripe, no Subúrbio Ferroviário de Salvador. Eles se conheceram na própria escola. Eram de salas diferentes, mas viraram amigos. O app idealizado pelos dois completou um ano de existência em março deste ano. "O aplicativo surgiu através de um trabalho de inglês. Minha professora queria que a gente fizesse um trabalho voltado ao tema violência contra a mulher. Era para a gente fazer algum tipo de campanha publicitária", diz Alan."A gente resolveu criar um aplicativo, porque seria mais fácil na divulgação e seria um meio melhor de auxiliar as mulheres pelo celular", conta o estudante.No Conscientizando, as pessoas podem ter informações sobre variados tipos de violência, sobre o conteúdo da Lei Maria da Penha, dados estatísticos e ainda participar de uma comunidade virtual, criada para que mulheres possam conversar sobre casos de violência que tenham sofrido ou presenciado. Segundo os desenvolvedores, 17 mulheres já se pronunciaram e cinco relataram ter sido vítimas e algum tipo de violência. "Elas podem ter acesso aos cinco tipos de violência, dados de estatísticas, mensagens e vídeos motivacionais e uma comunidade para desabafar, se já sofreu alguma agressão ou se sofre até hoje. As mulheres que já denunciaram pode também ajudar a motivar as outras mulheres a denunciarem também pelo WhatsApp", destaca Alan. Os estudantes contam que nunca fizeram curso relacionado à tecnologia e que não tiveram ajuda de ninguém para criar o aplicativo, que tem versão bilíngue (português/inglês). "Primeiramente, pensamos no assunto. Em seguida coletamos os dados. Depois juntamos tudo e começamos a pensar no desenvolvimento do aplicativo. Através das linguagens de programação Java e XML. Ele foi desenvolvido em código e em blocos", conta Carlos. "Não tivemos ajuda de nenhuma de especialistas. Nunca fizemos nenhum curso de que envolva tecnologia. Então, a gente tá aprendendo isso sozinho, em casa mesmo. Tem coisas que a gente não pode fazer por falta de conhecimento", afirma o jovem. "A gente não tinha uma estrutura de layout e nem design prontos. Então Carlos seguiu a estrutura do material design que é o atual design usado nos apps. Então, pode se dizer que fizemos a estrutura do Conscientizando se baseando nos atuais aplicativos presentes", diz Alan. Os dois estudantes já concluíram o ensino médio e pensam em planos juntos para o futuro. "Eu gostaria de fazer análise de sistemas e Alan quer cursar direito. Mas também pensamos em ampliar o Conscientizando e, quem sabe, outras ideias novas no futuro", afirma Carlos.