Sem ‘parças’, Coutinho carrega Brasil em silêncio e esquece até do penteado

  • 02 Jul 2018
  • 10:16h

Foto: Rafael Ribeiro CBF

Quando Philippe Coutinho ajeitou para o pé direito, soltou a bomba e marcou o primeiro gol do Brasil na Copa do Mundo da Rússia, só houve um motivo para que o lance não fosse totalmente comemorado. Nariko, velho amigo de Neymar e cabeleireiro de vários dos selecionáveis, se deu conta que Coutinho havia ajeitado o cabelo para o lado errado, o que fez com o penteado idealizado para a estreia contra a Suíça ficasse desfigurado. O episódio é pequeno por se tratar de um Mundial, mas diz bastante sobre a personalidade do principal nome do Brasil até aqui na Rússia. Nesta segunda (2), a partir das 11h (de Brasília), a cidade de Samara recebe o duelo entre brasileiros e mexicanos pelas oitavas de final. A esperança do Brasil estará nos pés do discreto, calado e pouco vaidoso Philippe Coutinho, responsável pelos melhores momentos da seleção na primeira fase. Um craque assim projetado desde muito cedo por seus pais e irmãos mais velhos. “O pai dele o acompanhava quase diariamente nos treinos do Vasco”, relembra Dorival Júnior, responsável pelas primeiras oportunidades para Philippe no profissional, com 16 anos. “O pai sempre esteve muito em cima dele. Teve toda uma criação, um jeito dele se comportar. Como falei recentemente para um jornal espanhol, o Coutinho é um carioca diferente. Introvertido, mas que prestava atenção a tudo. Um garoto fantástico”, resume. Esse lado contido foi uma das razões para que Philippe demorasse a desabrochar na Europa e também na seleção brasileira. Lembrado por Dunga já nas primeiras convocações deste ciclo, o hoje protagonista do Brasil só deslanchou com com Tite, quando assumiu a vaga de Willian em 2016 e ganhou elogios públicos do chefe. “Ele é o mágico”, repetia o treinador. Mesmo assim, Tite entendia que Philippe podia fazer ainda mais. Na viagem da seleção à Austrália para dois amistosos, no ano passado, entregou a ele a braçadeira de capitão. Uma das ideias do treinador era que o meia se comunicasse mais e fosse respeitado como liderança técnica do Brasil. Também foi nesse período que foram feitos os primeiros testes para que atuasse como tem atuado na Copa. A cada momento, recebia e justificava mais protagonismo. O que só ocorre em campo, claro. Diferentemente de vários jogadores, como Neymar, Gabriel Jesus e Marquinhos, por exemplo, Philippe Coutinho brilha na Rússia sem tanta torcida própria por perto. A simplicidade do camisa 11 se mostra na lista de acompanhantes que levou para a Copa: pais, irmãos, a esposa e a filha. Tudo para ficar com o foco voltado apenas ao campo e à família. Essa imagem que construiu na seleção também é, há algum tempo, a que tem na Catalunha. Respeitado em Barcelona desde que defendeu o Espanyol, em 2012, Coutinho já naquela época construiu o perfil de um jogador tranquilo, diferentemente de outros brasileiros que vestiram azul-grená. A escolha de onde moraria por lá exemplifica isso. Para viver perto do amigo Suárez, optou por uma região agitada da cidade, o bairro Castelldefels. Era onde Ronaldinho vivia e dava muitas festas em meio a muitas conquistas pelo clube. Era onde Neymar pensou morar, mas ouviu do Barça um pedido para que priorizasse uma área próxima ao Camp Nou, mais calma. Phillipe, de tão tranquilo, não encontrou resistência em uma escolha parecida. Sujeito simples, do tipo que é ligado às origens, Coutinho mantém o hábito de visitar Vila Isabel, o bairro onde cresceu no Rio. E se dependesse dele e da família, viveria até hoje. “Meus pais não queriam mudar de casa. Tinham construído a nossa com seu sacrifício, gostavam de lá e não queriam sair. Mas é uma zona muito perigosa e tiveram de se mudar”, contou recentemente. Querido por todos, inclusive por Neymar e sua família, Coutinho não se comporta como o segundo jogador mais caro do mundo quando o assunto é reivindicar prestígio. Depois de Brasil x Sérvia, quando somou uma linda assistência para Paulinho após dois gols marcados nos primeiros jogos, ele fez cara de espanto ao ser perguntado se era o melhor jogador na Copa até aqui e não quis responder. Nada mais representativo.