Com foco em criptografia, Facebook pode perder ainda mais o controle sobre os conteúdos da rede

  • 10 Mar 2019
  • 15:12h

Foto: AP Photo/Marcio Jose Sanchez

Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, publicou nesta semana uma espécie de manifesto detalhando sua visão para um Facebook "mais focado em privacidade". O texto é uma tentativa do fundador da rede social de retomar a confiança dos usuários – que ele próprio admite, na publicação, ter se deteriorado. Porém, a aposta em comunicações mais íntimas, privativas e protegidas por criptografia tem uma consequência: o Facebook terá cada vez menos controle sobre o que circula pelas suas redes. Por mais vantagens que a criptografia e a privacidade possam trazer, as ideias de Zuckerberg tem potencial para permitir que o Facebook tire de si mesmo a responsabilidade por policiar conteúdo. Afinal, se o Facebook é incapaz de ver o que as pessoas estão publicando e compartilhando, o Facebook também é incapaz de fazer o policiamento. Na prática, Zuckerberg não está propondo uma solução para os problemas que o Facebook enfrenta em relação à privacidade e à disseminação de conteúdo falso na rede. A visão dele se resume a aplicar o molde do WhatsApp ao Facebook e outros serviços que a empresa pode estar desenvolvendo. Isso nem está escondido: o WhatsApp é citado mais de uma vez como exemplo no texto. Não se trata de criticar a criptografia. É uma questão de falta de correspondência entre o que Zuckerberg propõe e as crises que o Facebook vem enfrentando. A criptografia não é solução para a negligência da empresa no tratamento dos dados pessoais, nem para a circulação de boatos dentro da rede. É verdade que qualquer rede pode ser um veículo para notícias falsas, mas o que diferencia o WhatsApp é a escassez de ferramentas disponíveis para que esses abusos sejam coibidos. Logo, a discussão acerca do WhatsApp logo vai para um extremo: ou essa tecnologia não pode existir na escala em que existe, ou o WhatsApp (ou seja, o Facebook) não tem culpa dos abusos que lá ocorrem. O motivo disso é a criptografia ponta a ponta disponível no WhatsApp. Embora seja um recurso muito interessante para certos tipos de comunicação, a criptografia, por impedir que o Facebook veja o conteúdo das mensagens trocadas, impede o bloqueio da circulação de links, sejam estes de fraudes ou notícias falsas. Em outras palavras, não há muito o que fazer. Não é à toa que o WhatsApp se transformou em um canal popular para fraudes, inclusive algumas envolvendo serviços do próprio governo, como no caso do benefício do PIS e da CNH gratuita. O comunicado de Zuckerberg reconhece essa dificuldade e afirma que a rede social pretende manter conversas com especialistas e com governos para descobrir o melhor meio de adotar a tecnologia, equilibrando os interesses de segurança pública e privacidade individual. Por mais sincera que essa declaração de Zuckerberg possa ser, ela não torna a posição de Zuckerberg mais confiável, especialmente diante da já demonstrada inabilidade do Facebook de coibir abusos no WhatsApp. O anúncio de Zuckerberg ocorre na mesma semana em que o Facebook desmantelou uma rede de desinformação que focava em internautas da Inglaterra e da Romênia. Os operadores mantinham páginas com conteúdo supostamente de extrema direita e, ao mesmo também, também páginas contrárias a essa mesma posição política. Com mais opções de criptografia, o Facebook teria dificuldade em realizar esse tipo de ação.


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