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Um incentivo à investigação no exercício do jornalismo

  • Por Guilherme Bittar / OI
  • 13 Mar 2016
  • 09:12h

(Foto: Divulgação)

A conquista do principal Oscar de 2016 por Spotlight premia não apenas um grande filme com um elenco magistral, no qual brilham Michael Keaton e Mark Ruffalo, mas consagra, sobretudo, o bom jornalismo. Dos concorrentes ao Oscar, Spotlight era o mais impactante em termos políticos, o que pode ter pesado na escolha como melhor filme do ano. Trata-se de um longa biográfico, que narra uma investigação jornalística desenvolvida por um time de repórteres que abalaria as estruturas da Igreja Católica. O filme se passa entre 2001 e 2002 em Boston, uma cidade americana de porte médio (645 mil habitantes). A história sacode o vespeiro que é a questão da pedofilia na igreja e mostra que jornalismo é fundamental, quando feito com independência, estrutura e determinação em investigar. Spotlight é honesto. Elenco e roteiro dão verossimilhança à história, sem se valerem de velhos clichês que costumam envolver histórias desse tipo, normalmente conduzidas por tipos caricatos de repórteres deslumbrados. O roteiro é sóbrio e ajuda a entender os bastidores de uma profissão difícil, compreendida por poucos. Pressões e porta na cara de jornalista estão lá, ameaças, além de tentativas de acobertar informações que deveriam ser de acesso público. The Boston Globe possui uma equipe de repórteres especializados em investigação, chamada de Spotlight. Eles podem ficar meses debruçados num assunto e não conseguir êxito. Ou então puxar o novelo de uma grande história, de impacto mundial, a exemplo dos escândalos na igreja. E ter a coragem de publicar. Mostrando os fatos, sem contemporizar, com o destaque que merecem ter. A despeito dos conchavos que uma instituição poderosa pode sugerir. A pauta sobre pedofilia na igreja já estivera à porta do Boston Globe em outras ocasiões, sem receber atenção. Foi preciso chegar um novo editor, Marty Baron, vindo de outra cidade, talvez por isso descontaminado pelo tipo de relações locais. É ele quem incentiva a equipe a levar o assunto adiante.

Em uma passagem marcante, o arcebispo sugere um acordo de cavalheiros ao editor, para que não prossiga com a pesquisa. “A cidade desponta com a aproximação de suas grandes instituições”, diz o arcebispo. “Obrigado. Sou da opinião de que um jornal só desempenha bem suas funções se for independente”, rebate, de forma direta, Marty Baron. E ele, direção e repórteres levaram mesmo à frente, após um ano de apuração, para o bem do jornalismo e das centenas de crianças que foram violentadas ou poderiam vir a ser não fosse os fatos se tornarem públicos. Uma cobertura desse tipo revela o que há de essencial no jornalismo: investigar e produzir histórias que possam causar transformação social. Mas a história só foi possível pela coragem dos repórteres e da própria direção do jornal – não apenas em publicar, mas em financiar uma equipe de investigação, o que custa caro. Times como o Spotlight estão em extinção nas redações dos médios e grandes jornais, que tentam reduzir custos de todas as maneiras. Spotlight mostra aos não iniciados que jornal diário sério não é jogar confete. Ao menos nas publicações que pretendem ser relevantes e, por isso, tendem a ter um futuro possível, qual seja a plataforma. Ao passo que o jornalismo mambembe, preguiçoso, subjugado pelas conveniências, voltado a interesses menores, esse será difícil vender para leitores cada vez mais críticos e detentores de um universo de informações disponível sem custos na internet e redes sociais. Os jornais importantes não têm de trazer grandes escândalos todos os dias. É impossível. Mas têm de estar preparados para cobri-los, tendo disposição de investigá-los sem aceitar a primeira explicação. Sem se contentar com a versão oficial. É essa relevância, quando vista na prática, que faz do jornalismo algo sensacional e indispensável. Spotlight é um sopro de esperança num meio marcado pela instantaneidade das informações. Que ajude despertar a luz do jornalismo investigativo em outros periódicos, para que mais histórias com poder de melhorar o mundo possam ser contadas. Isso é mais importante que qualquer Oscar.

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Guilherme Bittar é jornalista e editor-chefe do jornal Diário do Sudoeste, no Paraná

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