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A síndrome da notícia ruim

  • Carlos Castilho | OI
  • 12 Abr 2015
  • 09:09h

(Foto Ilustrativa)

Quando a avalancha de informações econômicas pessimistas se soma à rotina de notícias sobre assassinatos, balas perdidas, chacinas, tragédias familiares, assaltos e atentados contra a economia popular, a agenda diária da imprensa leva o leitor a um dilema atroz: ter ataques de fúria ou simplesmente ignorar a realidade – o que, no caso da imprensa, significa desinteressar-se pelas notícias para preservar a sanidade mental.


Está é a escolha que um número crescente de leitores, ouvintes, telespectadores e internautas brasileiros está sendo obrigado a fazer diariamente na hora de ler um jornal, revista ou assistir a um telejornal. Está cada dia mais difícil suportar a carga de pessimismo transmitida pelas manchetes e por âncoras de telejornais, alguns dos quais parecem ter prazer em anunciar novas tragédias e novos sacrifícios para um cidadão que passou da euforia e otimismo até o inicio do ano passado para um estado de choque agora em 2015.


A associação do noticiário pessimista com a estratégia oposicionista de desconstrução do governo Dilma Rousseff pode até ser casual, mas o fato concreto é que o crescente déficit de esperança do público consumidor de notícias tem consequências de médio prazo e que não são nada animadoras para o futuro da imprensa.


O que se nota atualmente é que uma parcela considerável do público começa a descrer do que a imprensa publica por associar as notícias ruins a uma estratégia política e ideológica. A outra parte da clientela de jornais, revistas, telejornais e redes sociais vincula-se a esses veículos não por sua missão informativa, mas porque oferecem abrigo e conforto para posicionamentos ideológicos. Ambos os casos deveriam preocupar os executivos da indústria jornalística porque eles não garantem a sustentabilidade futura das empresas que dirigem.


A descrença tem efeitos prolongados porque afeta a credibilidade de leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. Já a identificação ideológica pode ser transitória porque as conjunturas mudam e, com elas, a fidelização do público simpático às opções do veículo jornalístico. No caso atual, na hipótese de a presidente Dilma ser afastada, como deseja a extrema direita, o fator ideológico perderá relevância logo após as eventuais mudanças no governo, repetindo o que ocorreu antes e depois do golpe militar de 1964.


Saturadas por tantas notícias pessimistas ou irritadas com o impasse político-ideológico, as pessoas promovem nas redes sociais da internet uma catarse coletiva online, que por um lado pode aliviar temporariamente as tensões pessoais mas, por outro, carrega ainda mais o já pesado ambiente informativo .


Há dias li no Facebook o comentário de um internauta que dizia: “Eu já sei que está ruim e vai ficar pior. Por que a imprensa não nos acompanha na busca de soluções?” O angustiado consumidor de notícias deu vazão ao que muita gente pensa e tem muita dificuldade para transformar em prática.


A dificuldade é que fomos educados a cobrar e esperar que os governos e as empresas resolvam todos os nossos problemas. Hoje verificamos que nem um nem outro têm condições e vontade de atender às nossas expectativas. Os governos, de todas as tendências, se transformaram em entidades corporativistas preocupadas com seus próprios interesses. As empresas perderam a perspectiva de sua missão social e só pensam no próprio lucro num momento de crise.


O leitor pode cobrar da imprensa a aplicação do chamado jornalismo de soluções, uma opção que já é praticada em vários países, principalmente nos Estados Unidos, e que tem como condição prévia o desapego ideológico e partidário. O engajamento com o leitor é prioritário em relação às alianças politicas. O fundamental passa a ser ouvir o que as pessoas têm a dizer, identificar problemas a partir da base e não dos desejos e preferências dos editores. O principal objetivo é criar um ambiente de diálogo permanente entre o veículo jornalístico e as comunidades que ele elegeu como público alvo.


O bombardeio negativista nas manchetes e comentários pode agradar ao fígado e projetos de alguns jornalistas, políticos e empresários envolvidos na batalha entre petistas e antipetistas, mas já está saturando o público, que num impulso de sobrevivência social passa a olhar para o outro lado. Para muitos, este outro lado é simplesmente ignorar a imprensa, algo que deveria tirar o sono de executivos, diretores de redação e editores.

Agachamento completo. Fazer ou não fazer? Eis a questão.

  • Vitor Cotrim
  • 10 Abr 2015
  • 15:42h

Foto: Laércio de Morais I Brumado Urgente

Existe um conceito entre professores de educação física, atletas e praticantes de musculação que o agachamento é o exercício mais potente para o desenvolvimento dos membros inferiores. Porem há uma discordância entre alguns profissionais quando se fala em agachamento completo, onde o praticante ultrapassa os 90º defendidos ferrenhamente por alguns profissionais, acreditando que ultrapassar os 90º estariam induzindo seus alunos a lesões no joelho. Entretanto, estudos comprovam que o agachamento completo desde que se respeite as particularidades de cada indivíduo e se mantenha o equilíbrio pélvico, preservando as curvaturas anatômicas e fisiológicas da coluna vertebral, pode e deve ser executado, mas sempre sobre supervisão de um professor de educação física experiente, capaz de detectar até que ponto seu aluno deve descer, e é prudente que para uma maior amplitude do movimento se reduza a quantidade de peso. E não devemos nos preocupar apenas com os joelhos, pois, a parede abdominal e a musculatura lombar bem fortalecidas auxiliarão na postura correta durante o exercício.

Para sua segurança procure sempre por um profissional de Educação física. 

Leitura dos brasileiros é uma das piores do mundo

  • Paulo Esdras
  • 10 Abr 2015
  • 08:30h

Foto: Reprodução

As pesquisas e estatísticas da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em relação à leitura no mundo coloca o Brasil numa das piores colocações do ranking. A média em leitura dos países que integram a OCDE, na grande maioria economias desenvolvidas, foi de 496 pontos em leitura. O Brasil totalizou 410 pontos na matéria – resultado semelhante aos registrados pela Colômbia e Tunísia e abaixo da Costa Rica. A China, que liderou a classificação, também em matemática e ciências, obteve 570 pontos em leitura. O estudo revelou um dado alarmante em relação ao nível de leitura dos estudantes brasileiros: quase a metade (49,2%) ficou abaixo do nível de competências básicas. No estudo da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) referente ao hábito da leitura em 52 países revela que o Brasil ocupa a 47ª posição. Em países desenvolvidos, uma pessoa lê em média 10 livros ao ano. No Brasil, segundo o estudo, a média é de 4 livros por ano. 

 

Como professor de Literatura e observador cultural, acredito que o estudo esteja errado. A média não pode ser de quatro livros por ano. Alguma coisa está elevando este número! Será que os pesquisadores incluíram os livros didáticos e as revistas sobre fofoca? Infelizmente os jovens com condições de comprarem livros não leem. Imagina a maioria das pessoas que não possuem esta condição? Que média seria essa? Será que fabricaram a amostra nas academias? É triste, pois a leitura é responsável por boa parte do entendimento de mundo não vivenciado na prática. Sem leitura, não é desenvolvido o senso crítico de forma ampla. Será que não é isso mesmo o que a mão invisível do poder almeja? 

 

A solução para mudar este quadro está diretamente ligada às escolas. O investimento na qualidade da educação e a mudança do currículo escolar que engessa o estímulo à leitura em obrigatoriedades que afastam os jovens dos livros serão passos fundamentais para esta transformação. Sonhemos com o dia em que nossos jovens realmente leiam uma média de quatro livros por ano.

 

A grande lição das ruas

  • Por Dr. Cleio Diniz
  • 18 Mar 2015
  • 08:01h

Foto: Laércio de Morais I Brumado Urgente

Acabamos de ver uma lição de democracia por todo o país, uma demonstração de cidadania. Temos que a manifestação popular é uma das formas de nos comunicarmos com o governo, de nos fazer ouvir.

Contudo, os atos de indignação exteriorizado nas manifestações e por aqueles que de alguma maneira a apoiaram, neste exato momento, a menos de três meses da posse do novo mandato e reeleição, daquele que por quatro anos irá ocupar a cadeira da presidência de nosso País e tomar decisões que afetarão diretamente nossas vidas, se tornou um reflexo muito maior que o próprio exercício da democracia, mostra também a imaturidade política vivida em nosso País.


As manifestações são válidas e pertinentes, mas vamos aproveitar e refletir nas razões de sermos impulsionados a sair às ruas e manifestarmos contra um governo que acabamos de eleger. Certo que para isto será preciso uma dose grande de coragem. Coragem para assumir o erro recente, pois a poucos meses atrás fomos as urnas, e apesar de todos os escândalos conhecidos, como o tão falado mensalão e o atual escândalo da Petrobrás elegemos o governo que estamos pedindo para ser demitido.


Comodismo ou imaturidade. Independe, o certo é que esse mesmo governo contra quem se dirigiu as manifestações, e que era velho conhecido conseguiu convencer a maioria que nada do que está acontecendo existiria, que os prelúdios eram fantasias e que tudo continuaria como antes e seria um sonho dourado.


Que as manifestações, mais que um aviso de insatisfação nos traga o conhecimento da lição dada tão raramente, que desta vez, em excepcional ocasião mostrou em pouco tempo o resultado de um erro inconsequente. A vida, através das ruas esta nos dando a lição que não conseguimos buscar.

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Artigo de Opinião: Paraíso? de que?

  • Dr. Cleio Diniz
  • 26 Jan 2015
  • 15:19h

(Foto: Laércio de Morais | Brumado Urgente)

Pelas posições adotadas internacionalmente, vários Países passam a ser rotulados de paraíso em determinadas áreas. Alguns de forma positiva, outros nem tanto. Restringido as nomenclaturas conferidas a aqueles que, por razões distintas adotam posturas não muito ortodoxa e apreciada pela lisura social. Assim temos os conhecidos paraísos fiscais, ou outros conhecidos pela produção de produtos falsificados.


Nesta linha, nosso País já cultua uma imagem e impunidade e tolerância, principalmente em crimes conhecidos como de “colarinho branco”, mas parece que isto não preocupa muito nossos governantes, os quais em uma política no mínimo estranha vêm adotando posturas que, apesar de qualquer justificativa, tem semeado a imagem que aqui é o paraíso da criminalidade.


Alguns episódios recentes tem apoiado esta ideia, assim vejamos, recentemente durante a Copa do Mundo de Futebol, um grupo de turistas chilenos cometeram atos de vandalismos, forma presos e extraditados. Em entrevista sobre o episódio, o embaixador Chileno declarou que as sanções aplicadas pelo governo brasileiro e que os autores do vandalismo seriam duramente punidos quando retornasse ao Chile por exporem a imagem do País.


Recentemente um brasileiro, após ser julgado e condenado por trafico internacional de entorpecente, recebeu a pena capital (pena de morte). Estranhamente o nosso governo saiu em defesa do criminoso chegando ao ponto de rogar por clemencia e ao não obter êxito mandou chamar o embaixador sediado naquele País em demonstração de repúdio e desagravo diplomático. Ora, falar que o fato se deu apenas contra a pena capital é hipocrisia, pois um dos maiores parceiros comercial do nosso País, tido como exemplo de democracia adota em alguns de seus estados a mesma pena capital, e nem por isto é criticado. Lei é Lei, e deve ser seguida para a segurança jurídica do estado e preservação do equilíbrio da sociedade.


Em concreto temos estampado a imagem de tolerância com a criminalidade, a qual não repensada e revertida poderá nos conferir o rótulo de paraíso da impunidade.

Artigo de Opinião: O CULPADO

  • Dr. Cleio Diniz
  • 22 Jan 2015
  • 19:37h

(Foto: Laércio de Morais | Brumado Urgente)

Com certa frequência escuto comentários sobre nossas leis estarem defasadas, serem velhas e não corresponderem às necessidades e anseios, de não serem capazes de responderem a onda de crimes das mais diversas espécies acometido no País, desde crimes de corrupção a própria violência. Percebo um sentimento de indignidade e a escolhida foram às leis.

Não que as mesmas não mereçam serem atualizadas, adequadas às inovações impostas por uma evolução acelerada e desenfreada. Ora, se prestarmos um pouco de atenção a nossa cronologia histórica, iremos perceber que a esmagadora evolução se deu nos últimos 200 anos, o que não é nada comparado à existência da raça humana.

Mas as leis por si só, mesmo atualizadas não compensaram o desequilíbrio que nos assola em prol da ilegalidade. Existe algo maior que denominamos de sistema, ou seja, não adianta termos leis severas se não temos como aplica-las decentemente, não adianta ter leis se ainda nos arrastamos por anos a fio para obtermos um julgamento, seja na esfera cível, seja na esfera criminal. Não adianta condenar se não tem onde prender, quiçá ressocializar.  A letargia do Estado em todas suas esferas propiciam e incentivam a ilegalidade, criando a imagem que o risco ainda é pequeno para quem navega no lado oposto da lei. Quando se beneficia da corrupção do dinheiro público, sendo pego não se devolve, não se tem o patrimônio escondido em nomes de terceiros alcançado pelo braço da lei.  Quando se é pego na criminalidade do trafico, do roubo e afins, mesmo sendo preso ainda se beneficia das benesses do sistema e a vítima arca com o total prejuízo.


A lei é apenas uma engrenagem dentro de um sistema e indiferente de sua modernização, a condição arcaica das demais peças a torna obsoleta e nada acontece. Mas ela acaba por levar a culpa, por servir de bode expiatório. Na verdade a lei é a grande desculpa encontrada por aqueles que prezam pela permanência de um sistema entravado e inoperante. Não podemos nos esquecer de que, este sistema é alimentado pela falta de conduta e apreço a responsabilidade individual de cada ente de um todo, a sociedade.

Trilogia da Segurança Parte II: 'Errar é humano, mas persistir é burrice'

  • Por Dr. Cleio Diniz
  • 17 Nov 2014
  • 09:40h

(Foto: Laércio de Morais | Brumado Urgente)

Juntamente como o dito popular “o pior cego é aquele que não quer enxergar”, ambos os ditados provem da sabedoria popular, e como tantos outros são frutos e refletem resultados reiterados de situações vividas, todavia se enquadram perfeitamente como espelho das ações adotadas na questão de segurança.


Após mais de 40 anos de pesquisa, o professor e psicólogo Stanton Samenow concluiu que “a decisão de cometer crimes pouco tem a ver com a pobreza e as condições de vida em que eles (bandidos) se encontravam” (Veja, ed. 2346. 06 de novembro de 2013. Pg 19). Esta conclusão desmitifica a tese usada hipocritamente por aqueles que buscam uma desculpa para justificar atos criminosos. A verdade é que pobreza e crime não são sinônimos, aliás, os maiores crimes são cometidos nas castas mais elevadas.


Em pesquisa realizada para produção de minha tese de monografia de faculdade intitulada “Fins da Pena” pude perceber que o meio influência, mas não origina a criminalidade. Por ser de amplo aspecto a celeuma da segurança, vamos simplificar e abordar a posição do estado e das entidades envolvidas traçando um paralelo de modo a criar uma transparência e melhor entendimento através de dois exemplos reais.


O primeiro e mais recente, o ataque ao Parlamento Canadense, onde um dos criminosos foi morto por um policial. Este Policial foi recebido como herói em sessão especial, condecorado e aplaudido de pé.


No Brasil, mais precisamente na cidade de São Paulo, a Rota (polícia especializada similar a CAESG) após denúncia descobriu um “tribunal do crime”, o qual estava em funcionamento. Foi recebida a tiros de fuzil, e no confronto alguns bandidos foram mortos, todos com extensa lista de passagem pelos mais diversos crimes, sendo alguns considerados de alta periculosidade. Na operação foi encontrado armamento proibido e drogas. Os policiais foram afastados e processados. Como esperar que uma pessoa que é forçado, devido ao baixo salário, a morar com sua família ao lado da criminalidade e em um determinado momento vista um uniforme e se transforme, mas sabendo que se houver ato de heroísmo será processado.


Ora, qual será o meio, o modo mais correto de incentivar um combatente do crime, um funcionário a agir corretamente? Fala-se muito em punir o policial que não agir com probidade e lisura, mas não se fala em reconhecer e bonificar aquele que age com presteza. Em ambos os casos qual será aquele que surtira maior resultado?


Estamos vivendo a política do “achometro” onde as decisões são tomadas sem um estudo de resultado, mas apenas calcada em interesses, onde se aborda apenas a parte que lhe é benéfica para supostamente divulgar e conduzir um resultado.


Um povo sem educação não questiona. Um povo sem saúde é dependente. Um povo sem segurança tem medo. Este tripé torna-se o objeto do desejo de todo governo que se distância de seus propósitos para com os interesses da sociedade. Não se trata mais de incompetência, mas de acordar.

Trilogia da Segurança: O Sistema

  • Por Dr. Cleio Diniz
  • 10 Nov 2014
  • 10:48h

Dr. Cleio Diniz é articulista do Brumado Urgente (Foto: Laércio de Morais)

Este tal de “Sistema” que não tem mãe nem pai, passou a ser o autor por tudo que acontece, por gerir nossas vidas, nossos atos e ser o responsável por tudo que ocorre. Certo é que, quando algo funciona e tende ao sucesso sempre tem um responsável, mas quando dá errado a culpa sempre é do sistema.


Por estarmos tratando da questão de segurança, vamos restringir um pouco ao sistema judiciário, com uma visão crítica e analítica. Para tanto vamos pegar como base um caso concreto ocorrido a pouco, portanto atual, onde nossa mais alta corte, o Supremo Tribunal Federal se reuniu para julgar um caso onde uma pessoa estava sendo processada por roubar um par de chinelos, no valor de R$ 16,00.


Não que o caso deixe de ter sua importância, mas mostra o entrave burocrático existente no judiciário, o qual provoca a letargia do mesmo com enormes prejuízos a todos aqueles que precisam de uma solução para um determinado problema. Outro ponto a ser pensado é o extenso poder de subjetividade e independência conferido a cada juiz, equiparando cada um a uma corte distinta. Não que se deva retirar o livre convencimento do juiz, mas não seria hora de pensarmos em diretrizes e limitação, conferindo aos tribunais superiores o mando destas?


Certo é que o sistema na forma em que conhecemos e existe não está funcionando, ou como disse o próprio ministro da Justiça em um congresso de direito público realizado na cidade de Salvador/Ba. no ano de 2013, “este modelo de Estado que conhecemos está falido, está na hora de reinventarmos outro”.


Soluções existem, talvez falte coragem, vontade ou quem sabe interesse. Não podemos acreditar na incapacidade de se perceber que, na forma em que se encontra não esta dando certo, que esta errado, que o resultado é negativo, contrário aos anseios da sociedade, aos princípios da convivência e ordem social.

Artigo de Opinião: Politicagem e Preconceito

  • Por Dr. Cleio Diniz
  • 04 Nov 2014
  • 19:18h

(Foto: Laércio de Morais | Brumado Urgente)

Após os resultados das urnas iniciou-se uma onda de expressões qualificadas como preconceituosas, as quais foram criticadas, debatidas e tudo mais, todavia a origem, o cerne da questão não foi levantado, debatido, sequer analisado.


Nosso País é universalmente reconhecido pela sua miscigenação, aliás nossa origem. Nosso povo é formado pela mistura de todas as raças, o que entra em choque com esta postura.


Não é de hoje que esta “rixa” entre o norte e o sul existe e tive o desprazer de conhecê-la ainda na adolescência. Neste campo posso falar com propriedade, pois nasci no sul e me criei no norte e nas minhas idas e vindas pude presenciar este posicionamento incompatível com nossas origens.


Neste apurado aprendi que a questão econômica é muito mais fachada do que propriamente a razão, estando esta estreitamente ligada a questões políticas, ou seja, o interesse político e individual de “alguns” governantes fomentam esta disputa e suposta intolerância. Digo suposta porque o que se vê é um se beneficiando das benesses do outro, o que se vê é, acompanhando nossa história, o norte repleto de sulistas e o sul repleto de nortista.


Na verdade, ouso dizer que tudo é mantido pelo jogo ariscado do poder. Então vejamos, em fatos recentes, como estratégia de campanha, o grupo vencedor na última eleição pregava ser o representante dos pobres, enquanto o outro seria o representante dos ricos.

Traduzindo para a fachada da economia, um seria representante dos operários e o outro dos empresários, como se em ambos os casos esta divisão fosse possível. Digo possível porque como representante eleito da nação, o chefe de governo tem que administrar para todos, fazendo cumprir suas promessas feitas para aqueles que o elegeu e mostrando para aqueles que não o apoiaram que merece também sua confiança. Trazendo para o campo da economia, fica mais evidente separação das classes, pois não existe possibilidade do operário viver sem o empresário e nem este sem aquele.


Enfim, falar em separatismo por questões políticas ou econômicas é balela, pois se for posta em prática esta idéia, com base em economia, cultura e outras coisas mais não irá bastar dividir o País em duas partes, mas terá que ser uma divisão em dezenas, quem sabe centenas de mini Países.


Não podemos nos esquecer do velho e sábio ditado que diz “a união faz a força”, e com certeza a nossa grandeza faz a diferença e impõe respeito.

Opinião: Violência, até quando?

  • Por Dr. Cleio Diniz
  • 27 Ago 2014
  • 18:29h

(Foto: Brumado Urgente)

Há muito se fala do problema da violência, não só no Estado, ou a nível Brasil, mas em nossa região. Às vezes mais, às vezes menos, e este vai e vem da indignação pode estar apontando para um acontecimento muito maior e muito mais preocupante que a própria violência, ou seja, pode estar nascendo um indício de que a população está se acostumando com a situação, se acostumando com a violência e com a inércia das autoridades.


Pode causar espanto e dúvidas esta colocação, contudo, observemos que, nos últimos dias a violência tem tomado conta das páginas de noticiários, em todas suas esferas, onde Brumado por mais de uma vez fez parte do noticiário estadual através de uma das maiores redes de televisão, e tudo em razão de vários homicídios, e não estamos aqui falando de mortes provocadas por confronto com a Polícia em cumprimento de seu dever, e sim em execuções realizadas a frente de uma escola e ao lado da Delegacia de Polícia. Quanta ousadia.


Estamos falando de um crime considerado pela legislação com um dos mais repulsivos, e talvez somente por isto tenha chamado tanta atenção, e assim perguntamos: e como ficam os crimes de menor potencial ofensivo, segundo a legislação penal?


E é neste ponto que levanto a tese de que a população pode estar se acostumando a violência, pois os crimes considerados menores, como pequenos furtos, apesar de preocupantes não causam mais tanta indignação ao ponto de fazer o cidadão se levantar e gritar “chega”, ao ponto de chamar a atenção da imprensa, ao ponto de fazer parte das estatísticas e pesquisas que formam o ranking da violência. E estes crimes continuam crescendo, mesmo quando se fala menos sobre o assunto e se passa a impressão que tudo esta bem.


Por acaso estamos adotando a política egoísta: “não é comigo”? ou a que diz:” não vale a pena, da muito trabalho”?, ou: “ é culpa do governo, do judiciário, eles que resolvam”? ou ainda a mais bizarra: “fazer o que?” Certo é que estamos vivendo a culpa pela omissão, permitindo, pela preguiça a implantação da supremacia do crime.

O jornalismo pela ótica da interdisciplinaridade

  • Por Jeferson Bertolini
  • 17 Ago 2014
  • 11:22h

(Imagem Ilustrativa)

O Diário Catarinense circula, desde o dia 5 de agosto, sem as tradicionais editorias de Política, Economia, Mundo, Geral e Polícia. Agrupou-as na seção Notícias e, para os demais conteúdos, exceto Esporte e Anexo, mantidos em cadernos temáticos, criou a editoria Sua Vida. Para usar uma expressão usada e abusada por Latino, intérprete deFesta no Apê e Kuduro, o DC “juntou e misturou”. Em texto destinado aos leitores, o editor-chefe informou que o jornal mudou porque “sempre se reinventou para levar informações a um leitor com hábitos em permanente mutação”. Outros jornais já trocaram editorias específicas por seções mais abrangentes. Em parte, mudanças assim se devem ao levante interdisciplinar, que provoca transformações tanto no jornalismo quanto na vida. Ora, o aquecimento global é um problema ecológico ou social? A máquina de laparoscopia vem da computação ou da medicina? A guerra no Oriente Médio têm a ver com história, geografia, religião ou todos esses campos juntos? A interdisciplinaridade é um dos temas mais emergentes na academia. Ela consiste, segundo o professor Héctor Ricardo Leis, do departamento de Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em “um processo de resolução de problemas que, por serem complexos demais, não podem ser tratados por uma disciplina”. Para Olga Pombo, da Universidade de Lisboa, interdisciplinaridade é “um conceito que invocamos sempre que nos confrontamos com os limites do nosso território de conhecimento, sempre que topamos com uma nova disciplina cujo lugar não está traçado no grande mapa dos saberes, sempre que nos defrontamos com um problema cujo princípio de solução sabemos exigir o consumo de múltiplas e diferentes perspectivas”. Mundo em transformação Na prática, a interdisciplinaridade é o contrário da especialização. No caso da medicina, por exemplo, o especialista é aquele que, de início, escolheu ser médico, depois optou por ser ortopedista e, por fim, decidiu que entenderia de ombros. Do ponto de vista interdisciplinar, é bom que o médico seja especialista. Mas seria melhor se pudesse enxergar o paciente como um todo. E se o problema no ombro tiver relação com estresse ou má circulação? Outro especialista deve ser chamado? Do ponto de vista histórico, interdisciplinaridade e especialização opõem-se há séculos: a primeira tem raiz na Grécia Antiga, quando se formulou a ideia do Uno e do Múltiplo e se estabeleceu que Filosofia, Matemática, Letras e Artes deveriam compor a formação de um intelectual; a segunda tem base em René Descartes (1596-1650) e Galileu Galilei (1564-1642), que defendiam “a necessidade de dividir o objeto de estudo para estudar finamente os seus objetos constituintes” e, depois, recompor o todo a partir daí. Dito de outra forma, acreditavam que c onhecendo a parte poderiam conhecer o todo. A nova ciência, diz o professor João Eduardo Pinto Basto Lupi, do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC, é claramente interdisciplinar porque considera que “tudo está em relação a algo e deve ser considerado”. Ela “tem respeito por outras formas de ciência, por ciências femininas, por ervas, por conhecimentos práticos, por ciências orientais”. Nela, “há uma integração geral e holística”.No caso do Diário Catarinense, a recém-criada editoria Sua Vida tem um propósito parecido. Vai juntar e misturar. Ou, como informou o jornal, a editoria vai concentrar“notícias sobre comportamento, finanças pessoais, carreira, saúde, família, espiritualidade, ambiente e mobilidade”. Nas palavras do editor-chefe, Edgar Gonçalves, trata-se de um “espaço para informar os impactos no ser humano de um mundo em acelerada transformação”. (Jeferson Bertolinié repórter e doutorando em Ciências Humanas)

A HORA DA RESPONSABILIDADE

  • Dr. Cleio Diniz
  • 31 Jul 2014
  • 17:37h

(Foto:Laercio de Morais | Brumado Urgente)

Não nos faremos repetir sob pena de pecarmos pela redundância, basta que mencionemos o fato de anteriormente, em diversos artigos termos exaltado a responsabilidade do povo, do cidadão quanto aos desmandes governamentais, as falcatruas e maracutaias da política e a impunidade destes que se banqueteiam do sistema e se regozijam com nosso dinheiro.


O governo administra o povo, mas o cidadão controla o governo. Por este princípio podemos afirmar que todo povo tem o governo que merece afinal o governo é formado por um grupo de políticos com autorização do povo para agir em seu nome.


A nova campanha eleitoral começou e os santos, dentre os sérios voltaram a aparecer solicitando sua autorização para conduzir, não só a administração pública, mas nossas vidas e nosso dinheiro. Por esta razão podemos dizer que a hora da responsabilidade chegou, e encontra-se na mão de cada um o destino de nosso País, e não vale reclamar posteriormente por uma péssima escolha.

Visto que, tudo tem que ter um ponto de partida, por que não pode ser agora? Porque não podemos passar a escolher nossos representantes com base em suas propostas e desconfiar de campanhas milionárias e de promessas miraculosas? Por que não passamos a investir em propostas a longo prazo, porém concretas, plausíveis e consistente?


Um velho e sábio ditado diz que “a pressa é inimiga da perfeição” e na ânsia de ter tudo resolvido no dia seguinte às eleições estaremos vulneráveis a acreditar em promessas ardilosas que nos farão levar a “colocar a raposa para tomar conta do galinheiro”.


Como sabiamente coloca o escritor James Robinson, Inglês autor do livro Por que as Nações Fracassam, “Os políticos precisam abdicar de seus interesses pessoais e se aproximar dos interesses dos eleitores”. Ouso acrescentar que, a escola para este aprendizado são as urnas e os professores nós eleitores.

Liberdade de imprensa e desinformação

  • Por Juciano de Sousa Lacerda | OI
  • 28 Jun 2014
  • 14:12h

(Foto: Reprodução)

A liberdade de imprensa é um valor importante e condição necessária para uma sociedade democrática, mas não é condição suficiente para a democracia. Por quê? Simplesmente porque, nos últimos 200 anos, vimos a transformação da imprensa em empresa de mercado capitalista, cuja mercadoria é a informação e cujos interesses estão em jogo com os demais interesses do capital. A liberdade de imprensa deve garantir que os jornais não sofram a pressão dos governos, mas também deveria garantir mecanismos contra a pressão do mercado. Contudo, como as empresas de jornalismo são empresas de mercado, parecem estar no seu habitat natural. Desta forma, como fica a noção de “opinião pública”?

Para responder a este aspecto, retomo artigo de Luciano Martins da Costa, publicado noObservatório da Imprensa em 17/04/2014:

“Poderíamos conversar durante horas sobre o fato evidente de que a maior parte daquilo que é apresentado como ‘opinião pública’ pela imprensa não passa de um retrato instantâneo de certo estado emocional provocado pelo impacto do noticiário. E o noticiário, como sabemos, é definido pelo potencial de espetáculo que cada elemento de informação é capaz de produzir. Assim, um escândalo de R$ 10 milhões no âmbito federal é mais valioso do que um malfeito de R$ 100 milhões na instância do município ou do estado, dependendo, é claro, de quem seja o governante da ocasião” (ver “A desinformação como estratégia“).

Portanto, o uso político pela imprensa, da “opinião pública”, para defender seus próprios interesses corporativos como sendo de “interesse público”, atacando determinados governantes e poupando outros que lhes oferecem benefícios, direta ou indiretamente, comprometem o exercício da liberdade de imprensa. Assim, vemos transformado o direito de liberdade de imprensa em “liberdade de empresa”, como diz Venício Arthur de Lima, professor aposentado da UnB. Os jornalistas que buscam usar do direito da liberdade de imprensa para produzir informação para a sociedade, independente dos interesses privados ou governamentais, muitas vezes são censurados dentro da própria empresa jornalística, pois tais informações vão contra os seus interesses no mercado.

Diante desse quadro nacional, em que a imprensa trabalha com a desinformação como estratégia, como analisa Luciano Martins da Costa no Observatório da Imprensa, a aprovação do Marco Civil da Internet no Brasil, pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, e a sanção pela presidenta Dilma Rousseff, é um marco fundamental para os novos tempos. Hoje, os próprios leitores de jornais, da mídia digital e da mídia eletrônica, podem fazer um exercício de ampliação, contextualização, avaliação e crítica do processo de desinformação da imprensa brasileira. A garantia da “neutralidade da rede” é algo que agora é oficial no papel, mas os homens e mulheres brasileiros, no exercício de sua cidadania, precisam ficar atentos para fiscalizar a ação das empresas de telecomunicações para que não criem pacotes diferenciados, com preços mais altos para quem publica ou tem acesso a vídeos e arquivos maiores na rede. Nos tempos atuais, o cidadão também produz informação, não somente a imprensa. Desta forma, é preciso garantir também o direito de publicar e de ser lido/acessado/visto de cada um dos cidadãos, sem nenhum tipo de discriminação ou cobrança diferenciada de valores em relação à qualidade da velocidade dos dados. É desta forma que poderemos manter a qualidade da liberdade de imprensa, no exercício cidadão de comentar, qualificar, criticar, mostrar sucessos, contradições e erros da cobertura jornalística.

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Juciano de Sousa Lacerda é jornalista e docente do mestrado em Estudos da Mídia da UFRN

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Jornalismo de Centavos, Sensacionalismo e Cidadania

  • Por Luiz Martins da Silva e Fernando Oliveira Paulino | OI
  • 04 Mai 2014
  • 17:00h

Este trabalho consiste em tentativa de compreender o florescimento de tabloides brasileiros como uma nova, grande e sustentável onda do que atualmente se tem denominado de “jornalismo popular”, mas que seria, de fato, o reaparecimento – com algumas variações em torno da fórmula original –, do jornalismo sensacionalista que remonta aos anos de 1830 e que foi chamado pelos estudiosos ora comopenny press ora como yellow press e, no Brasil, de imprensa marrom. A análise está dividida em duas partes: a primeira, detendo-se na evolução dessa modalidade de “popularização” dos acontecimentos midiáticos. A segunda, um exercício de projeção teórico-deontológica: a penny press de hoje pode oferecer aos seus leitores mais do que os ingredientes tradicionais – crimes, fofocas e esportes –, pois entre as inovações já se encontra uma significativa dose de matérias de serviço. Porém, a principal indagação é: da mesma forma como esses jornais retratam a violência e se servem dela como um valor mercadológico, poderiam igualmente prestar um serviço à sociedade também difundindo valores de cultura de paz? Nesse caso, conclui-se que estariam, por força de um novo valor agregado, ultrapassando o seu papel de ser tão somente uma nova versão da rebatida fórmula do jornalismo de centavos.

O fenômeno na sua origem

Iremos considerar para o início desta reflexão os conceitos de penny pressyellow press, yellow journalismimprensa marrom para, em seguida, fazermos uma aferição de como um fenômeno histórico está presente no atual mercado de notícias e, por fim, verificarmos – em termos de uma projeção teórico-deontológica –, as possibilidades de utilização do seu potencial para fins de difusão de valores, especialmente os de cultura de paz.

O que estamos designando de “jornalismo de centavos” corresponderia a uma tradução livre, para os dias de hoje, do que um dia foi a penny press, ou seja, uma modalidade de jornalismo que surgiu nos Estados Unidos na década de 1830 para atender a demanda, o gosto e o poder aquisitivo da classe trabalhadora (working class) e imigrantes, por iniciativa de empresários que viam nessa prática um achado mercadológico e auto-sustentável, isto é, de forma a não depender, financeira e editorialmente – como o fazia a “grande imprensa” da época –, de partidos políticos (party press).

Penny é a menor divisão da moeda inglesa, a libra esterlina. A expressão que se criaria no imaginário anglo-saxão, penny press, corresponderia a uma imprensa de centavo, tão acessível e tão popular, a ponto de ao custo de dois centavos ser possível remeter-se um jornal para a leitura de alguém. Não se tratava, porém, de uma imprensa de assinatura, mas de um filão cuja fórmula consistia exatamente em difundir notícias curtas e de interesse geral, em contraste com as notícias de caráter ideológico e analíticas, típicas da imprensa criada para difundir ideais político-partidários. A penny press surgia para a venda imediata, direta e prática ao consumidor, por meio dos jornaleiros, cujo ícone, no sentido iconográfico mesmo, veio a ser o de uma criança com a boca escancarada, apregoando: “Extra, extra!” [Jornaleiros, ou seja, ‘pagos à jorna’ (jornada); ardina (étimo português)].

penny press é um fenômeno bem datado, referenciado em dicionários de comunicação e constantemente citado pelos que têm pesquisado as teorias do jornalismo, como o professor Jorge Pedro Sousa [Construindo uma teoria do jornalismo. Em: www.bocc.ubi.pt, p. 9], autor de várias obras nesse campo. E é ele que vai fazer sobre essa modalidade de imprensa o seguinte registro:

A imprensa noticiosa tem raízes na primeira geração da imprensa popular que desponta nos Estados Unidos nos anos vinte e trinta do século XIX e na imprensa de negócios que floresce a partir do século XVIII. Essa primeira vaga de jornalismo predominantemente noticioso (penny press) vai-se impor ao jornalismo predominantemente opinativo (party press) até ao final do século XIX, motivada, entre outros factores, pelo aumento da informação circulante devido à generalização do telégrafo e à melhoria dos transportes e das vias de comunicação. Em Portugal, a fundação do Diário de Notícias, no fim de 1864, assinala precisamente essa viragem noticiosa do jornalismo.

Penny press:literalmente, imprensa de centavos [TRAQUINA, N. Teorias do jornalismo. Florianó­polis: Insular, 2005, p. 50, “O novo conceito de produção jornalística pode ser exemplificado com o New York Sun, primeiro jornal de massa que surge em 1833, o New York Herald, criado em 1835, e o La Presse, lançado em Paris em 1836]. No plural, porque, enquanto os jornais tradicionais eram vendidos por seis centavos, os ‘novos’ jornais eram vendidos pela metade, ou seja, três centavos, nos EUA. A designação penny press foi, portanto, pejorativa, preconceituosa, conotação para ‘imprensa barata’, jornalismo sem qualidade. Teria, já àquela altura, despontado a distinção entre ‘cultura de massa’ e ‘cultura de elite’, mais tarde presente nas análises dos pesquisadores que vieram mapear as características de um fenômeno mais amplo que veio a ser designado por indústria cultural, denominação preferida pelos pensadores da chamada “Escola de Frankfurt” em relação à expressão “cultura de massa”, por entenderem que a massa – amorfa e desprovida de subjetividade própria –, não era capaz de produzir cultura. E a própria cultura que lhe era atribuída era, na verdade, uma produção estruturada por um sistema dominante e capaz de impor umethos já pronto para ser consumido de forma acrítica, algo totalmente inverso à ideia de uma sociedade auto-reflexiva e, consequentemente, autônoma e esclarecida.

De forma mais ampla, a reprodutibilidade técnica que assiste em quantidade e velocidade ao novo paradigma de produção, circulação e consumo de jornais viria a ser designada de yellow press, em analogia às ‘páginas amarelas’ dos anúncios comerciais em catálogos e listas, gênese das atuais listas telefônicas, cujo miolo ainda é impresso em papel barato, aliás, chamado de papel-jornal. O barateamento da produção e o próprio barateamento qualitativo dos conteúdos viriam, no entanto, ser fundamentais para o estabelecimento de uma ‘economia política’ capaz de assegurar a grande escala sem a qual não haveria sustentabilidade para um dos princípios mais elevados da democracia que é a liberdade de imprensa, conceito polêmico, pois ao mesmo tempo de dupla interpretação: liberdade de imprimir (print) e liberdade de publicar (press). O princípio da liberdade (freedom) de imprensa foi colocado por Thomas Jefferson (1743-1826) acima do valor dos próprios governos e, por si, constitutivo da democracia: “Se eu tivesse de decidir entre um governo sem imprensa e uma imprensa sem governo, eu não hesitaria um momento em escolher a segunda alternativa” (1787).

O fenômeno em sua expansão

A concorrência entre os jornais e, com ela, as estratégias para a conquista de fatias cada vez mais expressivas de leitores, têm levado a imprensa de massa desde os seus primórdios até os dias presentes a fazer uso intensivo da principal característica do sensacionalismo, que é o exagero. Como se a preferência por fatos dramáticos já não fosse por si uma tendência agonística do jornalismo, exponenciar os acontecimentos e as ações no que eles possam oferecer de dantesco e de grotesco tem sido uma prática constante, por vezes temperada com pitadas de erotismo e de outros apelos sensoriais, emotivos e psicológicos. Haveria (RABAÇA e BARBOSA: 424) duas categorias de sensacionalismo: o positivo e o negativo. O primeiro, referente ao exagero no tratamento jornalístico, por exemplo, com as “manchetes garrafais”; e o segundo, contendo “apelos e emoções destrutivos, geralmente de cunho sadomasoquista” [Cf. RABAÇA, Carlos Alberto e BARBOSA, Gustavo. Dicionário de Comunicação. Rio de Janeiro, Codecri, 1978, p. 424, verbete “Sensacionalismo”, por sua vez, remissivo a “Imprensa marrom” (p. 226), verbete vazio, pois remete a “Imprensa amarela”], procedimento característico do que propriamente se denominou, no Brasil, de imprensa marrom, por sua vez sinônimo de imprensa amarela (segue, na íntegra, o verbete correspondente” [Idem, p. 256]:

IMPRENSA AMARELA (jn): Imprensa sensacionalista. Expressão surgida nos Estados Unidos, em fins do século 19, no auge da competição entre o jornal New York World (de Pulitzer) e o Morning Journal (comprado em 1895 por Randolph Hearst), pela conquista dos leitores novaiorquinos. Surgiram nessa fase alguns dos elementos que lançaram as bases do jornalismo moderno: manchetes garrafais, artigos sensacionalistas, seçõesesportivas, numerosas ilustrações etc. O jornal World, concentrando esforços sobre osuplemento dominical, passou a estampar desenhos de Outcault (Yellow Kid) impressos em cor amarela, para atrair atenção do público. Os primórdios das Histórias em Quadrinhosestão, assim, vinculados também às origens do jornalismo sensacionalista. A competição entre esses dois jornais refletiu-se em inúmeros outros órgãos de imprensa, que levaram o sensacionalismo às últimas conseqüências, apelando para o escândalo, a intriga política, o achaque, a chantagem etc. No Brasil, diz-se mais freqüentemente imprensa marrom. Segundo Alberto Dines, esta expressão “foi cunhada pelo então chefe de reportagem do Diário da Noite, Francisco Calazans Fernandes, que sugeriu usar uma cor mais forte – o marrom – para designar ‘imprensa amarela’ (yellow press), expressão comum no jargão jornalístico ocidental. O DN passou a adotá-la, sendo logo seguido pelos demais jornais e jornalistas que deram cobertura à campanha e permitiram o seu êxito”.

A receita básica ainda está em pleno uso, se bem que sobrecarregada ainda mais em alguns dos seus elementos, como, por exemplo, as cores. Com o advento da impressão em off set e, mais recentemente, com o contributo de máquinas velocíssimas e digitais, muitas delas dispensando o antigo e demorado processo de revelação química de fotolitos e a retocagem dos mesmos, o colorido das páginas representa um atrativo a mais. A cor amarela, no entanto, ainda exerce uma predominância, ao lado do verde do alaranjado, por coincidência, as cores prediletas no planejamento de uma série de produtos industrializados, entre eles, refrigerantes. [O tabloide Aqui DF, de Brasília (R$ 0,50 – 28 páginas), apresenta com frequência em sua primeira página um terço da mesma em fundo amarelo, sobre o qual recai a principal manchete, geralmente dedicada a um crime. O amarelo é também a cor predominante na capa do Jornal na Hora H!(R$ 0,25)]

Em termos de conteúdos, as variações são poucas. Conforme ressalta Nelson Traquina (2005, p. 50) o surgimento da penny press implicou não só o aumento da circulação dos jornais, mas também a homogeneização de alguns fatores: a) conteúdos: notícias sobre fatos locais do cotidiano, processos de justiça, crimes, execuções, catástrofes e eventos extraordinários; b) rebaixamento de preços; c) público amplo e generalizado, ou seja, massivo; d) linguagem simples e acessível a pessoas de instrução escolar fundamental. Exemplifica como parâmetros desse então novo conceito de produção jornalística, o New York Sun, primeiro jornal de massa que surge em 1833, o New York Herald, criado em 1835, e o La Presse, lançado em Paris em 1836.

Há autores de várias épocas, como Frank Fraser Bond (1962) e Luiz Gonzaga Motta (2006), que enxergam na forma como o jornalismo sensacionalista narra os fatos um parentesco com as tramas teleológicas da literatura popular e do “fantástico” (na acepção do “conto maravilhoso”). [O “conto maravilhoso” é a categoria criada pelos formalistas russos para designar o trânsito dos personagens pelos mundos natural e sobrenatural, bem como pelas metaformas que assumem na prática de suas ações e respectivas consequências, boas ou más. Tal como é próprio dos atores das narrativas fantásticas, recebem dos seus criadores um destino conforme as suas ações, os jornalistas, no trato dos seus atores, também tenderiam a ser ou não justiceiros dos personagens envolvidos nas tramas ‘reais’. Em Brasília há um apresentador de um telejornal policialesco, que vibra e se exalta com o insucesso dos criminosos, fazendo uso da sentença “Como eu gosto de bandido burro”. Muito comum é também o uso de manchetes punitivas nas notícias de crimes publicadas pelos tabloides: “Mala levou bala”; ou, “Mala se deu mal”.] Bond se refere a uma certa “psicologia do público leitor” a ser atendida em seus “impulsos reprimidos ou frustrados” por relatos compensadores. O público estaria dividido em três categorias básicas: os intelectuais (grupo pequeno que tende para a crítica), os práticos (grupo envolvido com negócios e que não tem interesse em crítica ou arte) e os não-intelectuais (o maior de todos os grupos), que “lêem as revistas mais baratas, apreciam os espetáculos baratos e emocionam-se vivamente com os filmes de perseguição e aventuras”. Comparando os papeis do escritor e do jornalista perante os anseios dos públicos, Bond afirma: “Embora o novelista e o escritor tenham explorado esses princípios [o impulso de ação, o impulso de sexual e o impulso para o mundo do sonho], mais extensamente do que o jornalista, este nunca deve esquecer que seu público é o mesmo. Sua incumbência, como a do novelista, é interessar o leitor” [Opus cit., p. 80].

“Como pode o escritor satisfazer as necessidades desses grupos que, unidos, compõem a população nacional de leitores de jornais?”, indaga Fraser Bond, para em seguida, ele próprio comparecer com esta resposta: “Pode fazê-lo analisando seus gostos e necessidades e lembrando-se deles quando se aventura mesmo pelo mais simples noticiário”.

Motta, por sua vez, tem analisado ao longo de seus vários livros sobre teoria do jornalismo a presença do mito nas narrativas de fatos insólitos, cujo enredo se passa numa fronteira de encantamento em que o real parece inacreditável e o inverossímil se demonstra empírico. Essa comutação entre o real que parece fictício e a ficção com foros de realidade também encontra explicação nas reflexões de Adriano Duarte Rodrigues, no seu texto sobre “O acontecimento” [Trata-se do capítulo “O acontecimento”, texto de abertura do livro TRAQUINA, N. (Org.) Jornalismo: Questões, Teorias e “Estórias”. Lisboa: Vega, 1993]. Ao propor uma equação segundo a qual os acontecimentos quanto mais improváveis mais midiáticos, Rodrigues conclui que a mídia cumpre uma função remitificadora do cotidiano. Estudioso dos faits divers [Faits divers: fatos diversos, em francês; features, em inglês. Expressão para histórias “leves” ou que não se enquadram, ordinariamente, em editorias específicas: política, economia...], Motta tem analisado uma boa quantidade de matérias jornalísticas em que a singularidade fica por conta do que a razão consideraria impossível de acontecer, mas que se apresenta no cotidiano das manchetes, como na seguinte: “Presente de Natal: filha ‘enterrada’ volta ao lar” [Opus cit., p. 114].

O estranho-insólito é o eixo a partir do qual o resto da história é narrado. Ele é colocado pelo jornalista logo na primeira frase do lide da matéria (um presente de Natal de arrepiar os cabelos), estimulando desde o início o efeito do espanto em relação ao episódio. O relato pode ser identificado com o que T. Todorov chama de fantástico-estranho [...].

A morbidez foi e permanece como um dos cacoetes mais presentes no processo de seleção e hierarquização (newsmaking) dos fatos e histórias que compõem a pauta (agenda) dos conteúdos dapenny press. E um dos lugares-comuns na edição desse tipo de ‘notícia’ é a montagem de uma charada que convida à leitura, mediante a curiosidade instaurada no título e subtítulo e a decifração do enigma à medida que o leitor percorre a estrutura da narrativa, sob a forma da pirâmide invertida [Na verdade, a moça, supostamente morta, estava desaparecida por seis meses, sofrera um acidente, esteve em coma e, um dia, para surpresa natalina, apareceu, de táxi, para espanto de sua mãe].

O fenômeno, hoje, no Brasil

Transportando no tempo esse fenômeno para a Brasília das décadas de 2000 a 2010, pode-se dizer que a fórmula básica se mantém, mas com alguns acréscimos. No ‘país do futebol’, uma visível ênfase nas matérias sobre jogos, campeonatos e vida de jogadores [No Aqui DF, seis das 28 páginas são dedicadas exclusivamente a esportes (futebol, em maior parte)]. No país das telenovelas, páginas de serviço com informações sobre a grade de programação e, evidentemente, muitas notas sobre a vida das celebridades do mundo da TV: um olho nas tramas ficcionais e outro nos detalhes da vida particular dos atores e atrizes. Um ingrediente, no entanto, sobressaiu nesse contexto de cultura tropical, não-puritana e permeada pela nudez típica das passarelas de carnaval [Uma nova tatuagem da pop-staré pretexto para uma foto sensual da mesma, mesmo que a tatuagem tenha sido no pulso (Aqui DF, p. 16, metade da página, em 18/02/13)]. Alguns desses tabloides apresentam invariavelmente uma chamada de primeira página com uma “modelo” nua ou seminua, remetendo para um “ensaio” fotográfico nas páginas interiores e sempre que possível apontando um detalhe picante sobre a intimidade da retratada, por exemplo, a revelação de que ela usa um piercing íntimo. [No Distrito Federal, onde situamos a nossa amostra empírica, oJornal na Hora H!(R$ 0,25 – 24 páginas) é o veículo que oferece como atrativo diário uma stripper. E há até uma chamada-lugar-comum. Com uma ou outra alteração no texto, ela é aquele tipo de mulher que de “santinha” só tem a cara ou que de “anjinho” só tem o rosto. Tais apelos terminam com imperativos do tipo “Confira a gata” (na página 17).] É claro que esse tipo de permissividade erótica não é admissível na sociedade norte-americana. Com todo o seu liberalismo, um nu em primeira página só com a edição dentro de um plástico.

No Brasil, o tipo-ideal de penny press pode ser expresso pelo diário Super Notícia, de Belo Horizonte (R$ 0,25), o jornal de maior tiragem no país em 2010 e 2011. Uma simples visita ao portal do Super Notícia[Disponível em http://www.otempo.com.br/super-noticia/. Acesso em: 12 jan. 2014] permitirá ao leitor abrir uma enorme variedade de links que compõem o cardápio das retrancas e respectivos conteúdos. A principal manchete é dedicada predominantemente ao principal crime do dia. Crimes predominam nos links, especialmente os da editoria de Cidades.

É importante verificar que o jornalismo de centavos hoje presente nas capitais brasileiras ultrapassou em muito – tanto em variedade de conteúdos quanto em qualidade gráfica –, os jornais que outrora se enquadravam no gênero “jornalismo policial”. Embora os fatos da “crônica policial” continuem sendo a peça de resistência do “jornalismo popular”, os tabloides atuais proporcionam aos seus leitores (e internautas) um leque muito amplo de “variedades”, incluindo colunas (sete no caso do Super Notícia), palavras cruzadas, jogo de sete erros, horóscopo, seções dedicadas a novelas e matérias de serviço (dinheiro, empregos, concursos). O Super Notícia tem um link para notas de “Utilidade pública”.

É preciso ressaltar a existência de numerosos jornais gratuitos, mas que, a despeito da sua gratuidade e de serem tabloides, não se enquadram no gênero “jornalismo popular”, como é o caso do principal tabloide gratuito de Brasília, o Jornal da Comunidade (semanário do Grupo Comunidade, 130 mil exemplares) e dos diários Metro (16 páginas) e Destak (16 páginas), o primeiro (JC) marcado por matérias mais amplas e analíticas (política, economia, saúde, comportamento, mercado imobiliário) e por um significativo número de páginas dedicadas à alta sociedade da Capital brasileira. Com diversificada oferta de notícias curtas, o Destak também não traz conteúdos típicos do chamado “jornalismo popular”, em suas editorias de: BrasíliaBrasilMundoSeu Valor (economia), Vitrine Destak (mercado publicitário), Esportes,Diversão & ArtePassatempo (cruzadas, horóscopo, frases, sudoku etc) e Seu Destak (notas de serviço).

Já o tabloide gratuito Coletivo (16 páginas, do Grupo Comunidade), possivelmente por ter como público focal passageiros do metrô e dos transportes coletivos, concorre claramente com o Jornal Na hora H! e com o Aqui DF (do grupo Diários Associados), mas sem a ênfase apelativas daqueles dois com relação a conteúdos policiais e eróticos. Enquanto o jornal Metro orienta a sua diferença para matérias informativas e de serviço, o Coletivo também difere dos jornais de R$ 0,25 e 0,50, mas sem deixar de ser “popular” na embalagem da leitura rápida e fácil dos conteúdos e mesmo sem ser tão apelativo quanto aos conteúdos policiais e eróticos não deixa de explorar as ‘fofocas’ do show business (retranca “Variedades”), coisas do tipo: “Melancia assume namoro com pagodeiro. A informação foi confirmada pela assessoria da dançarina”.

Brasília, cidade marcada pela rotina administrativa e consequente presença de grande número de usuários de repartições públicas, viu incorporar-se ao seu cotidiano a oferta de publicações gratuitas, que tornam menos aborrecida a espera pelo atendimento em órgãos como: Departamento de Trânsito, Procon, Receita Federal e outros. Evidentemente, que jornais com mulheres nuas e manchetes escabrosas não combinam com o decoro desses ambientes, mais formais e mais protocolares [Fotos de ‘modelos’ exibindo pronunciadas nádegas são rotineiras em boa parte dos tabloides de baixo preço, bem como manchetes redigidas de forma irônica e popularesca: “Mala levou bala”. Mala é gíria para bandido]. Um dos tabloides gratuitos mais antigos de Brasília, o jornal Lotus, dedica-se integralmente a temas e serviços ligados a saúde, terapias alternativas e esoterismo. Ou seja, nem tudo que é gratuito é apelativo, mas quase tudo que é barato é barato também na acepção de grotesco. Pode-se afirmar, no entanto, que os aspectos grotescos de diários como Jornal Na hora H! e Aqui DF, tampouco se alinham com os representantes do gênero em décadas anteriores. Estamos nos referindo especificamente ao prosaico Notícias Populares, bem caracterizado como imprensa marrom, e daquela associada ao comentário “se espremer sai sangue”.

O fenômeno na sua projeção teórico-deontológica

A imprensa com traços remanescentes do que foi numa era caracterizada como yellow press não permanece pura nas características dos seus primórdios, tendo passado a incorporar – conforme verificado neste trabalho –, novos valores e novos compromissos, para além dos valores-notícia estruturantes do processo de noticiabilidade e do paradigma da “teoria do espelho”, segundo a qual o jornalismo retrata a realidade e a ela se atém. A atividade jornalística conserva com zelo, pelo menos hipotético, o princípio basilar de que a imprensa livre faz parte da própria configuração de uma sociedade democrática, desempenhando mesmo o papel de um dos poderes republicanos, o quarto, ao lado do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Porém, nesse contexto democrático, a imprensa livre e plural também avocou a si um nível antes não concebível de envolvimento com os fatos, pela via do serviço ao público que ela presta, como instituição auxiliar do cidadão e da cidadania.

Mesmo em veículos que não explicitem ter abraçado como missão o seu compromisso com o cidadão e com a cidadania, a inserção constante de matérias de serviço e de utilidade pública funciona como uma forma de legitimação de um novo paradigma, aquele que se edificou como um movimento (e não propriamente um gênero) por parte de organizações jornalísticas do mundo inteiro, ou seja, o civic journalism (ou public journalism). E no Brasil, embora a ideia do “jornalismo público” não esteja associada a projetos específicos e financiados, como ocorreu e ainda ocorre nos Estados Unidos, também existe uma consciência cívica quanto ao vínculo dos veículos de imprensa com o cidadão e com o público. Emissoras de rádio e TV ligadas direta ou indiretamente ao Estado fazem questão de se identificarem como praticantes da “comunicação pública” e do “jornalismo público” como traço distintivo de outras qualificações: privado e governamental. Por sua vez, as redes que fazem parte do sistema privado de radiodifusão demonstram permanentemente em suas chamadas e vinhetas a convicção de que estão a serviço do público, como o faz a Rede Globo, com slogans do tipo: “Cidadania você vê aqui” e “Solidariedade você vê aqui”. Registra-se, assim, um movimento cruzado: os veículos de comunicação direta ou indiretamente ligados aos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário lembrando que são públicos (e não propriamente estatais ou governamentais) e os veículos privados lembrando que são privados, porém públicos (na sua missão e na utilidade pública dos seus serviços).

Com relação à amostra que recolhemos e que orienta o presente texto [Por cerca de 90 dias – entre dezembro de 2012 e fevereiro de 2013 –, observamos edições dos jornais Aqui DFJornal na Hora H!Metro,DestakColetivo, especialmente os dois primeiros, por serem eles os que mais se aproximam do modelopenny presse que, hoje, pareceu-nos como prática do que estamos denominando de “jornalismo de centavos”], a dedução é de que mesmo o que é hoje equivalente à penny press de outrora adquiriu outros contornos e outras tentativas de aceitação social e do que poderia ser chamado de “justificativa ética do mundo”. O que poderia ainda ser chamado de imprensa marrom já não cabe dentro do antigo rótulo (que vem da década de 1950), pois embora ainda explore a fórmula antiga – principalmente o exagero dos aspectos emocionais dos fatos –, já não faz mais o estilo “se espremer sai sangue” e ainda procura oferecer seções e colunas de “serviço” e de “utilidade pública”.

Imprensa marrom e imprensa amarela são, portanto, valores semânticos diacrônicos, mais adequados à rotulagem de produtos que já não estão nas bancas e que fazem parte do mercado de outrora, da iconografia de outrora e de um contexto social de outrora. “Jornalismo popular” parece, no entanto, um eufemismo-substituto para “jornalismo policial”, expressão em desuso. De qualquer maneira, é inegável que, mesmo com alterações e inovações (acesso online), o fenômeno da penny press permaneceu e se fortaleceu. E o fator preço permanece como um traço marcante de identificação.

A indagação metodológica, no entanto, é a seguinte: se o “jornalismo de centavos” foi capaz de se ultrapassar e em alguns casos até de encontrar formas de sustentabilidade que não a venda em bancas (alguns tabloides são gratuitos) seria também competente para oferecer contrapontos, por exemplo, com relação aos conteúdos de violência? Poderia a yellow press de hoje assumir compromissos coerentes com as advocacias e mobilizações atuantes na sociedade civil e nas campanhas públicas? Entre os serviços e as iniciativas de utilidade pública que entraram para as suas páginas, haveria lugar para que o cidadão encontre nesses veículos algum valor-agregado, por exemplo, voltados para a difusão de uma cultura de paz?

Por enquanto, podemos encontrar não respostas claras, mas já alguns indícios, como as instruções que são passadas aos leitores sobre as melhores condutas a serem adotadas pelas pessoas ao serem surpreendidas pela violência. Um tipo de crime muito difundido nas capitais brasileiras é hoje o sequestro-relâmpago, cujo êxito (para os bandidos) depende em grande parte da falta de precaução das vítimas. Ir além da notícia estaria a requerer dos narradores dos fatos algo mais que o exagero típico do sensacionalismo jornalístico. Quando os cidadãos se encontram à mercê de criminosos, a atitude que se espera, de quem quer que seja, é, no mínimo, de solidariedade e de prescrição de cuidados preventivos. Estaria o “jornalismo de centavos” envergonhado de continuar simplesmente explorando a violência como matéria-prima mercadológica?

Há indicadores de que os jornais que claramente se enquadram na categoria da penny press de hoje começam a incorporar outros valores para além dos valores-notícia, de duas formas: à primeira estamos denominando de “valor agregado”. Ao fato jornalístico selecionado com base nos critérios tradicionais de noticiabilidade, agregam-se informações adicionais de contexto e de orientação e foco na cidadania, de modo que a notícia adquira elementos de utilidade pública e, com isso, transforme-se numa matéria de serviço. O segundo procedimento seria propriamente uma atitude deontológica e coerente com a clássica “Teoria da Responsabilidade Social da Imprensa” [A evolução da teoria da responsabilidade social culminou no relatório da Comissão para a Liberdade de Imprensa de 1947, apelidada de Comissão Hutchins, referência ao presidente da mesma. Inicialmente, as propostas dessa Comissão – e que estão no cerne dos pressupostos docivic journalism–, não foram bem recebidas pela imprensa em geral (PAULINO, 2009)], ou seja, aquela que pressupõe por parte dos veículos de comunicação um compromisso social, no caso da violência, não se limitando aos fatos no que eles têm de atrativo emocional e mercadológico, mas, sobretudo, no que deles pode ser tirado como aprendizado e prevenção.

Um paralelo dessa possível responsabilidade social da imprensa no trato dos fatos jornalísticos relacionados com violência pode ser traçado, comparativamente aos procedimentos da justiça restaurativa, cujo foco recai prioritariamente na vítima e não no agressor; nos ganhos pedagógicos por parte dos atores envolvidos (infrator, vítima, famílias, comunidade, segurança pública e políticas públicas e sociais) em lugar da simples realização do desejo de punição ou, na falta deste, no realce da frustração do cidadão e da sociedade quando prevalece a impunidade e o sentimento de insegurança.

Conclusões

Há pelo menos três séculos que se estabelece uma correlação entre democracia e liberdade de imprensa, princípio apregoado por todos os próceres libertários e presente em todas as constituições. No entanto, a partir do início do século XX desenvolveu-se a consciência de que a liberdade de expressão (speech), de imprensa (print) e de publicidade de ideias (press) exigia uma contrapartida de responsabilidade, surgindo daí a Teoria da Responsabilidade Social. [Em contraponto às “teorias libertárias”. E enquanto o louvor recaía ao “distanciamento” do narrador em relação aos fatos, com o advento do civic journalismo paradigma mudou para: “o jornalismo público recomenda uma tarefa diferente: operar bem as ligações, especialmente a ligação fundamental entre o jornalista e os cidadãos”. Cf. ROSEN, Jay. “Tornar a vida pública mais pública: sobre a responsabilidade política dos intelectuais dos media”. Em: TRAQUINA, Nelson e MESQUITA, Mário. Jornalismo cívico. Lisboa: Livros Horizonte, 2003, p. 55. Outra mudança de paradigma fundamental exige levar-se em conta que o surgimento do conceito de “democracia participativa” em contraponto à clássica (porém sujeita ao descolamento entre eleitor e eleitos) “democracia representativa”.] A partir do final da década de 1980, surgiu nos Estados Unidos e se difundiu por vários países um movimento intitulado civic journalism (também identificado como public journalism), tendo como principal proposta o engajamento das redações com os desafios das comunidades. A motivação para votar e as mobilizações em torno do voto consciente estão no âmago da ideia do “jornalismo público”.

Não existe, contudo, um consenso fechado em torno da ideia de que a imprensa deva ir além dos fatos, comprometendo-se com as soluções dos problemas sociais por ela tematizados. Ainda prevalece por parte dos mais expressivos jornais do mundo – The New York Times, Washington Post, The Times Le Monde,entre outros –, a firme convicção de que reportar os fatos com precisão e densidade já é uma tarefa digna de um dos mais árduos trabalhos de Hércules. [Em dado momento, o movimento intitulado civic journalismfoi considerado pela “grande imprensa” norte-americana, como se fosse uma “cruzada”, o que, por si, gerou uma reação no sentido de que a imprensa livre e independente deve se manter fora de “cruzadas”.] A noção seguida por esse bloco é a de que a imprensa deve parar no limite de onde entram os políticos e governantes, não sendo nem papel nem dever do jornalismo arvorar-se à gestão pública da vida pública.

Uma outra corrente, no entanto, tem buscado se afirmar, com uma pregação quase apostólica, em favor de uma imprensa que não separe o seu trabalho da “vida pública”, um corolário que em muito se assemelha à concepção de vita activa [O exercício da cidadania não pode ser passivo, sinônimo de omissão. Para Hannah Arendt, cidadania e vida ativa, ou seja, participante, são uma coisa só], de Hannah Arendt. Marco delimitador de uma polaridade de pensamentos quanto a papel e dever da imprensa foi a famosa polêmica entre Walter Lippman (1889-1974), que defendia um “governo das elites” (certamente, com apoio da imprensa) e John Dewey (1859-1952), que defendia a democracia como um sistema participativo, nele atuando de forma integrada e como protagonistas as comunidades e os veículos de comunicação. As ideias de Dewey foram matriciais para o surgimento do civic journalism e seus numerosos pensadores, entre eles, James Carey, Jay Rosen, Edmund Lambeth e Davis Merritt, este último um dos mais profícuos autores e militantes do movimento, para quem jornalismo e democracia são “simbióticos” (TRAQUINA; MESQUITA, 2003, p. 12)

Tendo em vista os comentários de Merritt, ou o yellow journalism e sua correspondente yellow pressencontram meios de agregar valor (serviço ao público) ao seu ‘trabalho’, ou permanecerão estáticos, se servindo da sociedade e da vida pública literalmente pelo seu lado negativo (numa analogia para com o processo fotográfico), quando o seu melhor desempenho poderia se dar pelo lado luminoso, literalmente pelas luzes do Esclarecimento. Alguns indícios de que já ocorre uma reversão de expectativas foi o que pudemos observar numa verificação empírica de como se dá em pleno século XXI um modo de produção jornalística que remonta os primórdios do século XIX e que, em matéria de preço por exemplar, permanece na escala dos centavos ou até faz parte de outro fenômeno, que é o da mídia gratuita, mas no que se refere à sua função social tem um potencial imenso por se cumprir, tanto pela sua expressão, num momento em que o restante da imprensa é recessivo, quanto pela própria expansão das classes populares no Brasil. [Desde a década de 1990 que os governos federais que se sucedem no Brasil gostam de ostentar estatísticas segundo as quais houve sucessivo ingresso das classes D e C na aquisição de moradias e consumo. Não por acaso, o ingresso dos imigrantes e da classe operária no mundo da leitura foi um dos motivos do surgimento do fenômeno da penny press.]

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Bicho-Preguiça

  • Crônica do Villas
  • 01 Mai 2014
  • 14:36h

A primeira vez que vi um bicho-preguiça foi na Floresta Amazônica. Ele estava no colo de uma indiazinha, meio abraçado a sua barriga nua, sem arranhar. Ele tinha mesmo um ar preguiçoso, de quem não está nem ai. Com um olho meio aberto, o outro meio fechado, me encarou assim meio blasé. Gosto do bicho-preguiça. De tempos em tempos, a gente tem notícia de que um apareceu numa árvore e que foi preciso um batalhão do Corpo de Bombeiros pra tirá-lo lá de cima. Acho engraçado o bicho-preguiça ter esse nome. Na França ele chama  preguiçoso. Com razão. O bicho tem um ar de quem não quer nada com a dureza. Quer sombra, água fresca e brotos de planta. Fiquei sabendo outro dia que ele costuma dormir 14 horas por dia, e é assim que ele vai levando a vida, deixando a vida levar, devagar, devagarinho. Sei lá, fiquei pensando esses dias como a gente também anda preguiçoso. Não que durmamos 14 horas por dia ou que vivamos de sombra, água fresca e brotos de plantas. Pelo contrário, o homem dá um duro danado e tem trabalhado cada vez mais. Mas, para outras coisas, ficamos tipo bicho-preguiça. Quer ver só? Se você entra numa concessionária pra comprar um carro e o vendedor diz que aquele modelo não tem vidro elétrico, nada feito. Como viver virando e desvirando aquela manivela pra abrir ou fechar os vidros do carro? E o controle remoto? Nem existe mais televisão sem controle remoto. Se fabricarem, não vendem uma sequer. Só de pensar que tem de levantar cada vez pra mudar de canal ou aumentar o som, a gente desiste da compra. Já percebeu, num shopping, quantas pessoas sobem pela escada? Uma em cada mil. Novecentos e noventa e nove vão pela escada rolante e se ela estiver parada, preferem sair andando à procura de uma que esteja funcionando a subir degrau por degrau. Dá uma olhada só no aeroporto ou na rodoviária, quantas pessoas estão carregando uma mala, daquelas malas pesadas que todo mundo carregava. Ninguém! Está todo mundo empurrando sua mala de rodinhas. Antes eram duas, agora são quatro pra cada mala. E assim vamos ficando preguiçosos. É o manobrista que estaciona o seu carro. É o garoto que coloca suas compras de supermercado na sacola, é o lava-jato que lava o seu automóvel, é o porteiro que abre o portão do seu prédio para você entrar, é o elevador que te leva pro primeiro andar. Ninguém mais faz força engraxando sapatos, passando escovão no chão ou fazendo força pra estacionar o carro porque o volante tem de ser hidráulico. Tenho amigas que só compram abacaxi descascado no supermercado. Pra que fazer força pra descascar um abacaxi? E não é só o abacaxi. Compram também o melão em pedaços, a melancia cortada e a mexerica em gomos. Uma outra amiga só compra bolo pronto, desses Pullman, só pra não ficar lá fazendo força, transformando a clara em neve.Outro dia um amigo meu, cansado de tanto sedentarismo, resolveu comprar um livro chamado  Walkscapes – o caminhar como prática estética, do Francesco Careri. Comprou pela Internet porque ir caminhando até a livraria, nem pensar.